A Emancipação Negra e a Internacional Comunista

Por John Riddell.** Trad. Betto della Santa.***

Um dos eventos mais importantes na história da America negra ocorreu na distante Moscou no início da década de 1920. Lá, em uma conferência de revolucionários de todo o mundo, dois revolucionários negros lideraram o Quarto Congresso da Internacional Comunista – ou Comintern – na adoção de uma estratégia mundial para a emancipação negra.

Este encontro histórico ajudou a abrir a porta para o desenvolvimento de uma influente corrente de marxistas negros nos Estados Unidos, Caribe e África.

Mas afinal por que os dois delegados negros – Otto Huiswoud e Claude McKay – tiveram que viajar meio mundo para elaborar uma estratégia de libertação negra? Por que eles não simplesmente pegaram o metrô para a sede do movimento comunista dos EUA, bem em Nova York, onde eles viviam?

Qual foi o contributo decisivo da Comintern para o desenvolvimento do marxismo entre os negros dos EUA?

Os trabalhos do Quarto Congresso do Comintern, que receberam uma publicação magistral há poucos anos em inglês, nos ajudam a responder a essas perguntas.(1) Mas antes de considerar o documento do Congresso, vamos reconstituir como Huiswoud e McKay vieram a fazer sua longa viagem por navio e trem para Moscou.

Ressurgimento negro

No início do Século XX, a Segregação de Jim Crow foi imposta em todo o Sul dos EUA, onde a maioria dos negros morava, privando-os de voto e outros direitos civis e sujeitando-os ao terror racista. Em duas décadas, no entanto, um novo impulso para a resistência foi sentido em setores da comunidade negra.

Este ressurgimento encontrou expressão em um movimento nacionalista e pan-africanista de massa – a Associação Universal de Melhoria do Negro ou UNIA –, liderada por Marcus Garvey, que funcionava nos EUA, no Canadá e em toda a região do Caribe. Esta radicalização também deu origem a uma corrente revolucionária agrupada em torno do Crusader, uma publicação do movimento negro fundada em Setembro de 1918 por Cyril Briggs. Suas opiniões e trajetória tinham muito em comum com o nacionalismo revolucionário negro mais tarde associado à figura histórica de Malcolm X.

O resultado da Primeira Guerra Mundial apartou os negros na sociedade racista dos EUA. Como Jacob Zumoff observa: “Muitos intelectuais negros se sentiram traídos quando eles perceberam que o discurso do pós-guerra de [Presidente Woodrow] Wilson sobre ‘autodeterminação’ e ‘democracia’ excluía os negros em todo o mundo.”(2) Quando os poderes vitoriosos se reuniram na Conferência de Versalhes em Janeiro de 1919, ficou claro que o Tratado de Paz que estavam redigindo confirmaria o domínio colonial sobre os povos negros na África e no Caribe.

Enquanto isso, a jovem República dos Soviets, excluída da Conferência de Versalhes, estava implementando a autodeterminação dos povos oprimidos dentro de suas fronteiras e defendendo-o em todo o mundo. WA Domingo, um escritor negro radical em Nova York, observou então que os soviéticos “estão dispostos a estender o princípio da autodeterminação até as massas trabalhadoras da África, da Ásia e de todas as colônias”, enquanto buscam alcançar a “todos os povos oprimidos do mundo.”(3)

Manifesto do Comintern
Em março de 1919, revolucionários socialistas de mais de duas dúzias de países se encontraram em Moscou para fundar a Internacional Comunista. O manifesto da conferência anunciou:

Na melhor das hipóteses, o programa de Wilson não tem como objetivo mudar o rótulo da escravidão colonial … Escravos coloniais da África e da Ásia: a hora da ditadura proletária na Europa também será a hora da sua libertação. (4)

De acordo com Claude McKay, um comunista negro pioneiro nos Estados Unidos, esta passagem do manifesto despertou o interesse entre muitos grupos de negros radicais, que distribuíram o documento nos Estados Unidos.(5) Aqui estava uma promessa inequívoca de lutar pela libertação dos negros nas colônias da África e das Índias Ocidentais.

Por implicação, essa promessa aplicava-se aos negros nos Estados Unidos também. Essa conclusão, não declarada na reunião do Comintern de 1919, foi explicitada no segundo congresso internacional em Moscou no ano seguinte. As teses do Congresso de 1920 sobre questões nacionais e coloniais, redigidas por Lênin, declararam: “Todos os partidos comunistas devem apoiar diretamente o movimento revolucionário entre as nações que são dependentes e não têm direitos iguais (por exemplo, a Irlanda, os negros na América, e assim por diante), e nas colónias.”(6) O Congresso de 1920 também especificou que o apoio ativo para a libertação colonial era uma condição prévia para a adesão à Internacional.

Durante a discussão do Congresso sobre a questão colonial, o delegado norte-americano John Reed endereçou uma nota a Lenin, perguntando se esta seria uma ocasião apropriada para falar sobre negros nos Estados Unidos. A resposta escrita de Lênin, que foi preservada, foi: “Sim, é absolutamente necessário!”. Reed então apresentou à ocasião uma poderosa acusação sobre a opressão racista nos Estados Unidos para os delegados de todos os países.(7)

Alguns meses antes, em outubro de 1919, o jornal de Briggs’s anunciou a formação da Irmandade de Sangue Africana para a Libertação e Redenção Africanas, a ABB. Esta associação revolucionária representava, nas palavras de Mark Solomon, “patriotismo raça, anticapitalismo, anticolonialismo e defesa organizada contra a agressão racista.” (8) Seus líderes, incluindo Briggs e McKay, procuraram unificar o nacionalismo negro com o socialismo revolucionário. Eles falaram fortemente em apoio à URSS e ao Comintern.

Dois anos mais tarde, a ABB resumiu sua visão do Comintern em uma declaração programática: “A Terceira Internacional [Comintern] tem enfaticamente instruido seus membros a ajudar as raças mais escuras e de todos os outros povos oprimidos em suas lutas de libertação total.”(9)

Reorientando o comunismo dos EUA

O movimento comunista norte-americano não desempenhou quase nenhum papel nesta aproximação. Até 1921, ainda estava bloqueado em um dogmatismo estéril que o excluía da luta negra. O líder comunista norte-americano James P. Cannon descreveu a origem de sua posição da seguinte forma:

O movimento socialista anterior, no qual o Partido Comunista foi formado, nunca reconheceu a necessidade de um programa especial sobre a questão dos negros. Considerou-se pura e simplesmente como um problema econômico, parte da luta entre os trabalhadores e os capitalistas; nada poderia ser feito sobre os problemas especiais de discriminação e desigualdade a parte do socialismo.

Cannon cita Eugene Debs, “o melhor dos socialistas anteriores”, ao dizer: “Não temos nada de especial para oferecer ao Negro.” (10)

As observações de Reed em Moscou em 1920, apesar de sua militância, não ultrapassaram esse quadro. No entanto, os líderes da ABB queriam fazer parte do Comintern, e isso significava juntar-se à sua secção dos EUA. Em Dezembro de 1921, Briggs, como delegado amigo da ABB, participou da convenção dos comunistas norte-americanos que fundou o WP, o Partido dos Trabalhadores norte-americano.

A convenção retribuiu ao reconhecer, pela primeira vez, a necessidade de fazer trabalho educativo entre os trabalhadores negros e convencer os trabalhadores brancos que “para vencer, eles devem apoiar as raças oprimidas na luta contra a perseguição racial e ajudá-los na luta deles para garantir a igualdade econômica, social e política.”(11) Posteriormente, a ABB evoluiu para uma aliança próxima e, finalmente, se uniu ao movimento comunista dos EUA.

A questão negra no quarto Congresso

Dois líderes da ABB participaram do Quarto Congresso do Comintern, realizado em Moscou em novembro-dezembro de 1922, e receberam o status de delegados com voto consultivo.

O primeiro, Huiswoud, se juntou ao Partido Socialista em 1918 e, como parte de sua ala esquerda, participou da fundação do movimento comunista norte-americano no ano seguinte. Ele participou do Quarto Congresso como delegado oficial do Partido Comunista dos EUA (CP) e também como representante da ABB. Parece não ter deixado registro de sua experiência em Moscou. (12)

O segundo delegado negro, McKay, deixou um vívido memorial de sua visita a Moscou, intitulado A Long Way from Home.(13)

McKay, um poeta amplamente conhecido tanto dos negros dos EUA como internacionalmente, abriu caminho em Moscou por conta própria, sem credenciais do PC. Inicialmente, a maioria da delegação do PC dos EUA procurou excluí-lo do Congresso, aparentemente porque ele concordou com a minoria no partido que pediu que ele emergisse de sua existência subterrânea. No entanto, McKay ganhou o apoio de Sen Katayama, um veterano marxista japonês e líder do trabalho do Comintern entre os povos coloniais. Durante seus muitos anos de residência nos EUA, Katayama adquiriu uma boa percepção do racismo e opressão negra ao Norte das Américas.

Outro fator na aceitação de McKay foi a celebração de sua presença pelo povo russo. Nas palavras de McKay:

Nunca na minha vida eu me senti mais orgulhoso de ser africano, negro e sem titubeios a respeito… As ruas de Moscou estavam cheias de multidões ansiosas antes do início do Congresso. Enquanto eu tentava atravessar o Tverskaya, de repente, fui cercado por uma multidão, jogado no ar em triunfo e um sem-número de vezes, sendo carregado em êxtase de ombros amigáveis​​… Segui dessa maneira um decurso de êxtase coletivo e surpresas várias. Eu fui tomado subitamente por um torvelinho de doces emoções. (14)

O Congresso estabeleceu uma comissão, presidida por Huiswoud, para elaborar teses sobre a questão negra. McKay tomou assento, como convidado, e, a convite da comissão de sessões, junto com Huiswoud, dirigiu-se ao pleno do Congresso.

Huiswoud expõe o racismo dos EUA

Referindo-se à decisão de 1920 do Congresso do Comintern sobre a importância da libertação colonial na revolução mundial, Huiswoud disse ao Congresso que “a questão negra é outra parte da questão racial e colonial.” (15)  Parafraseando outro documento do Congresso, ele contrastou o movimento social-democrata mundial, “uma Internacional de trabalhadores brancos”, com o Comintern, “uma Internacional dos trabalhadores do mundo”.

“Embora a questão negra seja principalmente de natureza econômica”, acrescentou Huiswoud, “devemos incluir em nossa análise os aspectos psicológicos da questão”. Ele usou a palavra “psicológico” da mesma forma que Clara Zetkin, abordando o Congresso dois dias mais tarde sobre a condição das mulheres, para denotar o que os marxistas chamam agora enquanto “opressão.” (16)

“A questão da raça … ainda desempenha um papel importante”, disse Huiswoud. ”Os negros ainda têm a marca da escravidão decorrente do tempo colonial”. Ele descreveu as condições no Sul, onde “o linchamento de um Preto é a ocasião para o prazer”, e os sindicatos, muitos dos quais excluíam os trabalhadores negros. Em retaliação, os negros muitas vezes se recusaram a respeitar as linhas de piquete de tais sindicatos racistas, furando greves, ele observou, parafraseando os pensamentos de tais trabalhadores: “Eu tenho o direito  de fazer isso pela Lei de Deus. Preciso proteger minha vida”.

Ao analisar o que ele considerava as três organizações mais significativas do setor, Huiswoud criticou a NAACP por “solicitar que a classe capitalista melhorasse as condições dos negros, o que … é simplesmente uma forma de implorar de joelhos”. A Organização Garvey, apesar de suas falhas, “mobilizou negros em ação contra o imperialismo”e despertou a consciência racial.’ A Irmandade de Sangue Africana, pelo contrário,  seria “uma organização negra radical cujo programa é baseado na destruição do capitalismo.”(17)

McKay desafia os comunistas dos EUA

O discurso de McKay no Congresso descreveu os negros como “uma raça de trabalhadores – trabalhadores de madeira e carregadores de água – uma raça que pertence à porção mais oprimida, explorada e subjugada da classe trabalhadora do mundo”. Os capitalistas em todos os lugares tentam jogar negros e brancos uns contra os outros, disse ele, citando as tentativas capitalistas dos EUA de “mobilizar toda a raça negra nos Estados Unidos contra a classe trabalhadora organizada”.

McKay, que organizou os comunistas dos EUA como partido político legal e com atuação pública, disse ao Congresso que este curso não era possível no Sul dos EUA, onde negros e brancos estavam legalmente impedidos de se reunirem.

“Quando enviamos camaradas brancos para o Sul”, disse ele, “eles geralmente são expulsos pela oligarquia branca, e se eles não deixam a área, a multidão branca se volta para eles e os chicoteia, lincha e enxota-os. Mas, quando enviamos camaradas negros, eles não voltam novamente, porque são violentados e queimados”.

Infelizmente, os socialistas e os comunistas nos Estados Unidos conduziram a luta contra a “divisão racial e o preconceito racial … com grande cautela, porque ainda há preconceitos tão fortes também entre os socialistas e comunistas americanos”, disse McKay. “O maior obstáculo que os comunistas nos Estados Unidos devem superar é que eles devem antes de tudo libertar-se de suas atitudes para com os negros antes que eles possam ter sucesso em alcançar os negros através de qualquer forma de propaganda radical.” (18)

Embora os dois delegados discordaram sobre o caráter clandestino do PC, eles estavam, como McKay escreveu na época, “todos em acordo sobre o problema puramente negro.” (19)

Teses sobre a luta negra

A comissão sobre a questão negra apresentou um projeto de resolução, que foi encaminhado para edição. O rascunho final, apresentado pelo delegado dos EUA, Rose Pastor Stokes, foi mais arrazoado e desenvolvido do que o texto original. Apresentou as mesmas recomendações, com uma exceção: uma declaração no primeiro rascunho para que “o trabalho entre os negros seja realizado principalmente por negros” foi abandonada e substituída por uma promessa de luta pela igualdade total e direitos políticos e sociais iguais para os negros .(20)

Essa mudança deve ser considerada ao lado do compromisso da mesma resolução para convocar uma conferência internacional de negros e a chamada pública do líder do Comintern, Leon Trotsky, quatro meses após o Congresso, para que os comunistas dos EUA reunissem uma equipe de “cultos, abnegados e jovens negros” que levariam a mensagem de revolução às massas negras. (21)

A resolução é similar em muitos aspectos às concepções da Irmandade Negra Africana.(22)  Traz os seguintes pontos:

  1.                      Um sentimento de revolta entre os povos coloniais “despertou a consciência racial entre milhões de negros, oprimidos e humilhados por séculos, não apenas na África, mas também, e talvez até mais, nos Estados Unidos”.
  2.                      A história dos negros nos Estados Unidos preparou-os para desempenhar um papel importante na luta de libertação de toda a raça africana.
  3.                      A Internacional Comunista vê com satisfação a resistência dos negros explorados aos ataques de seus exploradores, já que o inimigo de sua raça e do trabalhador branco é idêntico: capitalismo e imperialismo. O movimento internacional negro deve ser organizado com base nessa plataforma nos Estados Unidos, África, América Central e Caribe.
  4.                      O Comintern procura mostrar aos negros que os “operários e camponeses da Europa, Ásia e América também são vítimas dos exploradores imperialistas” e estão lutando pelos mesmos objetivos que os negros.
  5.                      A assistência de nossos seres humanos negros oprimidos [é] absolutamente necessária para a revolução proletária e a destruição do poder capitalista”. Os comunistas deveriam “aplicar as [Resoluções do Segundo Congresso] sobre a questão colonial sobre a situação dos negros” que formam “uma parte essencial da revolução mundial.”
  6.                      A Internacional Comunista deve:
    a) Apoiar todos os movimentos negros que “minam ou enfraquecem o capitalismo ou colocam barreiras no caminho da sua expansão”.
    b) Lutar pela igualdade das raças branca e negra, e para salários iguais e direitos políticos e sociais iguais.
    c) Opor-se ao obstáculos à sindicalização de cor; apoiar a organização sindical de trabalhadores negros.
    d) Tomar medidas imediatas para convocar uma conferência geral ou congresso de negros em Moscou.

A ideia central das teses – a de uma luta negra intercontinental pela liberdade – não veio do Comintern ou do Partido bolchevique da Rússia. Em vez disso, era uma estratégia amplamente realizada naquela época entre os radicais negros de origem das Índias Ocidentais, que contavam entre seus membros com Briggs, McKay, Huiswoud e também Garvey. Foi adotado, em diferentes formas, não só pela Fraternidade Negra Africana, mas pela UNIA de Garvey e por Web duBois da NAACP. (23)

Após o Congresso, foi necessário adiar o projeto de um congresso dos negros. Em outros aspectos, a resolução estabeleceu o quadro para uma reorientação do PC nos Estados Unidos e o desenvolvimento do seu trabalho entre os negros até o final da década, quando uma posição diferente foi adotada a pedido de Moscou.

A contribuição do Comintern

No que, então, o Comintern contribuiu para a fusão de uma corrente revolucionária negra com o movimento comunista mundial?

É impressionante o que não se vê no registro do Quarto Congresso e nos documentos relacionados. Não há referências ou citações dos escritos passados ​​dos líderes bolcheviques. Na verdade, era extremamente raro que os líderes dos Comintern naqueles anos apoiassem discursos em citações ou argumentos de autoridade. Em vez disso, eles baseavam seus argumentos principalmente na observação da realidade corrente.

Também não encontramos tentativas dos líderes bolcheviques ou terceiro-internacionalistas com base em Moscou de instruir os delegados negros quanto ao curso correto para sua luta. Sua declaração mais substancial, feita por Trotsky, enfoca a importância do trabalho educacional dos comunistas negros entre as massas negras.

Quanto à referência de Lênin nas teses de 1920 do Comintern para os negros dos EUA como uma nação, não foi mencionada no Quarto Congresso ou discutida pela Internacional no início da década de 1920. Em vez disso, o Comintern adotou um termo que já não está em voga hoje em língua inglesa, mas que vigora entre os revolucionários negros: a raça negra ou africana.

Significativamente, as duas referências a documentos revolucionários anteriores dos delegados negros em Moscou tratam, ambas, do primado dos movimentos revolucionários entre os povos não-brancos do mundo. McKay citou o compromisso do Comintern, na sua fundação, de libertar “os escravos coloniais da África e da Europa”. Huiswoud lembrou a segunda decisão do Congresso que “reconheceu a importância da questão colonial” e os estatutos que proclamaram que a Comintern abraçou “as pessoas de cor negra, branca, amarela, de toda a terra.” (24)

O contributo decisivo do Comintern consistiu em uma visão central, que foi enraizada nas crenças daqueles que construíram o partido bolchevique e estabeleceram o Estado dos trabalhadores. Os líderes do Comintern consideraram que a luta de libertação dos negros fazia parte da revolta mundial dos povos oprimidos contra o colonialismo e o racismo. Eles, portanto, insistiram no dever dos comunistas de todos os países de apoiar ativamente e vigorosamente essa luta em particular.

Além disso, o contributo do Comintern estava sobretudo na sua incrível capacidade de ouvir e aprender com os expoentes mais clarividentes da revolução negra de seu tempo.

Agradecimentos tanto a Richard Fidler e Jacob Zumoff,
por seu fraternal apoio à pesquisa por detrás deste texto.

Referências em língua inglesa (infelizmente, não há outras disponíveis):

  1. John Riddell (ed.), Toward the United Front: Proceedings of the Fourth Congress of the Communist International, 1922 (Chicago: Haymarket Books, forthcoming).
  2. Jacob Andrew Zumoff, “The US Communist Party and the Communist International, 1919–1929,” Ph.D. diss., University College, London, 2003, 290.
  3. Oscar Berland, “The Emergence of the Communist Perspective on the ‘Negro Question’ in America: 1919–1931 Part One,” Science & Society, vol. 63, no. 4 (winter 1999-2000), 414.
  4. Riddell (ed.) 1987, Founding the Communist International: Proceedings and Documents of the First Congress–March 1919, New York: Pathfinder Press, 1987, 227-8.
  5. Riddell, Toward the United Front, 809.
  6. Riddell (ed.), Workers of the World and Oppressed Peoples, Unite! Proceedings and Documents of the Second Congress, 1920 (New York: Pathfinder Press, 1991), vol. 1, 286.
  7. Zumoff, US CP and Comintern, 287–88; Riddell, Workers of the World, 224–8.
  8. Mark Solomon, The Cry Was Unity: Communists and African Americans, 1917–36 (Jackson, Miss.: University Press of Mississippi, 1998), 9-10.
  9. Berland, Emergence, 419.
  10. James P. Cannon, The First Ten Years of American Communism (New York: Pathfinder Press, 1962), 230-31.
  11. Berland, Emergence, 419.
  12. For Huiswoud’s biography, see Maria Gertrudis van Enckevort, “The Life and Work of Otto Huiswoud: Professional Revolutionary and Internationalist (1893-1961)”, Ph.D. diss., University of West Indies at Mona, 2001.
  13. Claude McKay, A Long Way from Home (New York: Harcourt Brace & World, 1970 (1937)).
  14. McKay, Long Way from Home, 168.
  15. Um sumário dos discursos demonstra que “Negro” e “Preto” era termos intercambiáveis à época. Citações deste artigo são traduzidas da versão alemã das resoluções da IC. Eles usaram apenas o termo Neger, aqui vertido como “Black.” In: Fourth Congress of the Communist International: Abridged Report of Meetings Held at Petrograd & Moscow Nov. 7–Dec. 3, 1922 (London: Communist Party of Great Britain, 1923), 257–62.
  16. Riddell, Toward the United Front, 839.
  17. For Huiswoud’s speech, see Riddell, Toward the United Front, 800–807.
  18. For McKay’s speech, see Riddell, Toward the United Front, 807–10.
  19. Solomon, The Cry Was Unity, 20.
  20. Riddell, Toward the United Front, 806, 950.
  21. Leon Trotsky, The First Five Years of the Communist International (New York: Pathfinder Press, 1972), vol. 2, 355.
  22. For the online text, see www.marxists.org/history/international/c…. For a different translation, see Riddell, Toward the United Front, 947–50.
  23. Wayne F. Cooper, Claude McKay: Rebel Sojourner in the Harlem Renaissance, Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1987, 180-81.
  24. Riddell, Toward the United Front, 800 (Huiswoud), 809 (McKay); Riddell, Founding the Comintern, 227–28; Riddell, Workers of the World, vol. 2, 696.

*Fonte: International Socialist Review. Issue 81. Race and Class. London, Jan. 2012. Texto disponível na Internet: <https://isreview.org/issue/81/black-liberation-and-communist-international&gt;.

**Atua no movimento revolucionário socialista do Canadá, Estados Unidos e Europa desde a década de 1960. Historiador social e editor socialista de uma série de livros sobre a Internacional Comunista no tempo de Lenin, incluindo a recém-lançada Em Direção à Frente Única: resoluções do Quarto Congresso da Internacional Comunista, 1922 (Haymarket Books, London, 2012). Ele é um colaborador frequente do órgão teórico ISR. Seus escritos passados e presentes podem ser encontrados em seu Blog: <https://johnriddell.wordpress.com&gt;.

***Tradutor/intérprete especializado em marxismo clássico e contemporâneo de língua inglesa.

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Quem foi Siegfried Ellwanger Castan?

Siegfried Ellwanger Castan nasceu em 30 de julho de 1928, no município de Candelária, no Estado do Rio Grande do Sul, falecendo recentemente em 11 de setembro de 2010) foi um escritor – revisionista brasileiro e fundador da Revisão Editora .

     Seus estudos têm como objeto primordial a análise factual das diversas acusações ao povo Alemão de genocídio durante a segunda guerra mundial. Escreveu vários livros sobre as propagadas acusações, referentes ao período Nacional – Socialista alemão, nos quais desmente várias difamações, notadamente no que se refere ao chamado Holocausto

    O seu trabalho o coloca entre os estudiosos de várias nacionalidades que trabalham no restabelecimento da verdade histórica, desmantelando a estrutura criada por interesses ideológicos, políticos e econômicos em manter a nação e o povo alemão refém de crimes não ocorridos, através de manipulações da opinião pública mundial.

Juventude, Adolescência e Maioridade 

     Sua instrução primária iniciou-se no Grupo Escolar Guia Lopes e no Colégio Sinodal, em sua cidade natal e, posteriormente, no Colégio Mauá, de Santa Cruz do Sul.

     Por falta de condições financeiras da família, teve que abandonar os estudos em colégios, limitando-se a esporádicas aulas de matemática e de inglês com professor particular, pago com os poucos recursos obtidos com a venda de pastéis e rapaduras feitos por sua mãe. Entretanto aprende e domina os idiomas espanhol e o alemão, os quais foram de grande importância nos estudos e pesquisas que continua a desenvolver sobre os acontecimentos políticos atuais e os fatos da Segunda Guerra Mundial.

    Já na infância e na juventude trabalhou numa fábrica de botões de madrepérola em Vera Cruz, e posteriormente em fábricas de laticínios e de balas e caramelos em Santa Cruz do Sul. Em 1946 alistou-se como voluntário no Corpo de Fuzileiros Navais, do Rio de Janeiro, onde serviu por volta de três anos; em virtude de haver sido designado para trabalhar como escriturário no Estado Maior dessa corporação, aproveitava o tempo disponível para ler.

     Ao final de 1948 deu baixa no Corpo de Fuzileiros, passando a morar com a sua mãe em Porto Alegre, onde  deu continuidade à sua vida profissional, onde começou a trabalhar numa filial local de importante empresa do ramo de ferros e aços do Rio de Janeiro, onde em pouco tempo, passou de Auxiliar de Escritório a Chefe de Vendas.

     Depois de mais de oito anos nesse emprego, pediu demissão para assumir o cargo de gerente em outra importante organização do ramo, também com matriz no Rio de Janeiro. Após dez anos e meio como gerente dessa companhia, pediu demissão para fundar a sua própria empresa, a qual dirigiu durante mais de vinte anos, quando vendeu o controle acionário da mesma para um grupo do Rio Grande do Sul.

Pioneiro do Ramo Metalúrgico no Rio Grande do Sul 

   Siegfried Ellwanger é o responsável pela instalação da primeira fábrica de tubos de ferro galvanizado produzidos no Rio Grande do Sul simultaneamente à instalação de inédito sistema de solda por indução, pioneirismo que, como prêmio e incentivo, recebeu a concessão, por parte do Governo do Estado, da isenção do Imposto de Vendas e Consignações durante cinco anos.

     É o responsável pela instalação da primeira trefilação a frio de barras de ferro e aço no Rio Grande do Sul (com filial em São Paulo, esta continha mais de 20 pessoas empregadas); é o responsável pela primeira fabricação de eletro – dutos de ferro, que receberam o nome de “pioneiro”; é o inventor de placas de aço fundido para trilhos ferroviários, é o responsável pela primeira fabricação de arames de aço ovalados para amarração de caixas;  é o inventor de fixações elásticas para trilhos ferroviários e a fabricação das mesmas, tornando-se fornecedor da Companhia Vale do Rio Doce e evitando, com o seu produto, a importação de similares estrangeiros e poupando milhões de dólares em divisas para o país e também é o responsável pela instalação da primeira laminação a quente, de barras de aço em perfis especiais no Rio Grande do Sul, passando a atender, em grande parte, empresas multinacionais sediadas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, do ramo de tratores e indústria automobilística, algumas das quais como fornecedor exclusivo, pela alta qualidade dos produtos e fornecimentos pontuais.

      Sua laminação foi a primeira do Rio Grande do Sul e a segunda do Brasil a produzir guias de aço para elevadores, fato principal que motivou a venda de sua indústria para uma empresa de elevadores local.

     Além da laminação e trefilação, Ellwanger possuía uma firma que representou no sul do país, durante mais de vinte anos, a Aços Anhangüera, de São Paulo, tornando-a a maior fornecedora de aços especiais para as indústrias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

     A empresa de Ellwanger exportou barras de aço destinadas à fabricação de implementos agrícolas para o Uruguai. A sua empresa chegou a empregar mais de trezentos funcionários.

    Após duas décadas em atividade, Ellwanger desfez – se de seu sua empresa. De espírito ativo e pesquisador, Ellwanger se fez presente em diversas atividades e áreas econômicas, sociais e esportivas.

 Influencias e Ligações na Sociedade

    Ellwanger participou da delegação gaúcha, organizada pela Secretaria do Comércio e Indústria do Rio Grande do Sul, que viajou para Colônia, Alemanha, e a Londres, onde manteve vários contatos com empresas locais que mostravam interesse em associar-se a empresas brasileiras. Quando ainda não existiam relações diplomáticas e comerciais com Cuba, Ellwanger, como industrial, procurou estabelecer em Havana, com o Ministério da Indústria e Comércio cubano, um negócio de trocas, de níquel cubano que era 12% mais barato que o adquirido pelo Brasil de outros países, mas cuja origem era cubana, em troca de barras de aço, cujo preço era equivalente ao aço japonês, principal fornecedor de Cuba na ocasião. O que poderia ter sido um bom momento para o estabelecimento de relações de mútuo interesse, não passou além do Banco do Brasil.

    Ellwanger também foi durante muitos anos diretor de basquete da Sogipa. Ainda no basquete dirigiu a equipe gaúcha de juvenis, como representante da Federação Gaúcha, no Campeonato Brasileiro realizado em Penápolis, no Estado de São Paulo.

     Analises, Pensamentos e Descobrimento do Poder Oculto que Domina o Mundo 

    Antes de Siegfried Ellwanger Castan se conscientizar da Mão oculta Judaica que visa o domínio Mundial, Ellwanger foi filiado ao Partido Socialista Brasileiro, PSB, quando o mesmo era dirigido pelo Sr. Germano Bonow (pai); posteriormente filiou-se ao M.T.R. Movimento Trabalhista Renovador, de Fernando Ferrari, e por último ao P.D.T, de Leonel Brizola, que abandonou em 1992 por achar que na qualidade de presidente do Centro Nacional de Pesquisas Históricas não devia estar filiado a nenhum partido. Ellwanger foi também durante mais de dez anos membro do Lions Clube, em Porto Alegre, onde chegou a ser homenageado como o “Leão do Ano” e também admirador de Fidel Castro e do povo cubano.

    Em referencia à alguns acontecimentos mundiais e atritos entre países, Siegfried foi  completamente contrário ao boicote norte-americano a Cuba, à intervenção militar norte-americana em Granada e Panamá, é contrário também à intervenção em assuntos que só dizem respeito à China; contra a permanência militar na Coreia do Sul e Japão por parte do EUA, é contrário a agressão por parte dos EUA e OTAN contra a Iugoslávia e ao Afeganistão. Também é totalmente contra o abastecimento em dinheiro e armamentos ao Estado de Israel.

Portanto, dentro de todas essas experiências, S. E Castan conheceu de perto o poder oculto que domina o mundo, aprendeu como o combater e que posteriormente, deu inicio a sua grande criação.

Entrada no Revisionismo

    Após a venda de sua empresa, a qual durante mais de vinte anos de existência, com centenas de operários, empregados e funcionários, Ellwanger, como pesquisador, colecionador e leitor de livros e artigos sobre a Segunda Guerra Mundial há muitos anos, resolveu examinar de perto o que aconteceu.

     Após ir visitar pessoalmente diversos campos de concentração na Alemanha e na Polônia, manter entrevistas com testemunhas de ambos os lados, estudar documentos e textos com depoimentos em vários idiomas, resolveu escrever os livros revisionistas Holocausto Judeu ou Alemão? e Nos bastidores da Mentira do Século. Logo em seguida foram editados em inglês, espanhol e também em alemão.

Fundação da Revisão Editora  Ltda

Siegfried Ellwanger Castan fundou a Editora Revisão em 1985 (Rua Voltaire Pires, 300, conjunto 2 Caixa Postal 10.466 CEP: 90.001-970 Porto Alegre, Rio Grande do Sul), editora especializada em literatura revisionista eantissionista com o lema:”Conferindo e Divulgando a História, Tradição e Nacionalismo”.

Siegfried Ellwanger Castan publicou os seguintes livros:

– Acabou o gás! … O Fim de um Mito- Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira do Século

– SOS para a Alemanha

– A Implosão da Mentira do Século

– A Verdade sobre o “diálogo” Católico – Judaico no Brasil

– Inocentes de Nuremberg

     Além dos livros de sua autoria, a livraria comercializa, entre outros, os seguintes títulos:

– Brasil: Colônia de Banqueiros, Gustavo Barroso

– Dos Judeus e Suas Mentiras, Martinho Lutero

– História secreta do Brasil Vol. 1à 6, Gustavo Barroso

– A Indústria do Holocausto, Norman Finkelstein

– Hitler, Culpado ou Inocente? (Sérgio Oliveira)

 Fatos Revelados e Curiosidades sobre os Livros e a Editora

    Ellwanger é também o autor do famosos livro  Acabou o gás… O fim de um mito, no qual cita o relatório do especialista norte – americano em câmaras de gás, Fred Leuchter Jr, que sugere a impossibilidade físico – química da existência de câmaras de gás para execução de pessoas nos campos de concentração de Auschwitz, Birkenau e Majdatiek.

    É o autor de SOS para Alemanha – que pode ser considerado a continuação de seu primeiro livro, de A implosão da mentira do século e A verdade sobre o “diálogo” Católico – Judaico no Brasil.

    Em função do sucesso de seu primeiro livro e também por causa de perseguições e boicotes, Ellwanger fundou a Revisão Editora Ltda., posteriormente registrada como Revisão Editora e Livraria Ltda., pois as livrarias passaram a não adquirirem essas obras, denunciadas como obras rascistas, fato que o obrigou a vender os livros quase que só diretamente ao público leitor.

Em vista do elevado número de cartas, consultas e trocas de informações com leitores, estudantes e professores, Ellwanger fundou, em 8 de junho de 1992, o Centro Nacional de Pesquisas Históricas, que tem como obrigação estatutária, entre outras, denunciar falsificações e imposturas históricas. As denuncias de falsificação limitam – se ao movimento revisionista.

As argumentações de suas proximidades com o movimento comunista internacional apenas se explicam porque Ellwanger acreditava numa conspiração Judaica para a destruição do mundo.

Processos


     Em 1986, o grupo Movimento Popular Anti-Racismo, formado pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, pelo Movimento Negro Brasileiro e pelo Movimento Judeu de Porto Alegre, denunciou o conteúdo racista das obras da Editora Revisão, de Siegfried Ellwanger Castan, à Coordenadoria das Promotorias Criminais.

    Fez-se uma nova denúncia em 1990, desta vez junto à chefia da Polícia do Estado do Rio Grande do Sul, que instaurou inquérito policial, que foi remetido ao Ministério Público.

     A denúncia foi recebida em 1991, e foi determinada a busca e apreensão dos exemplares de diversos livros publicados por Castan, entre eles, Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira do Século, do próprio Castan, Hitler Culpado ou Inocente?, de Sérgio Oliveira e Os Protocolos dos Sábios de Sião, prefaciado por Gustavo Barroso.

Castan foi, então, em 1995, julgado e absolvido em primeira instância; contudo, em 1996 foi condenado por unanimidade pelos desembargadores da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

Apesar da condenação, ainda em 1996, Castan foi flagrado vendendo seus livros na Feira do Livro de Porto Alegre, o que levou a uma nova denúncia, que foi recebida em 1998, e pela qual foi condenado a dois anos de reclusão.

O Revisionismo Liberta    Em 2001 lhe foi negado recurso, e a condenação foi reiterada pelo STF. Houve intenso lobby a favor da condenação, orquestrado pelo Movimento judeu, com vínculos da maçonaria da ´B’nai B’rith, do rabino Henry Sobel, de juristas e advogados como Décion Milnitzki, Celso Lafer, Miguel Reale, e de políticos como o deputado federal Marcelo Zaturansky Itagiba, o senador Paulo Paim, e o deputado Ibsen Pinheiro (um dos “anões do Orçamento”). Na condenação foram votos vencidos o relator Moreira Alves, Carlos Ayres de Brito e Marco Aurélio de Mello. Votaram a favor da condenação, Maurício Correia, Celso de Mello, Carlos Velloso, Nelson Jobim, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Sepúlveda Pertence e Gilmar Mendes.

    Siegfried Ellwanger Castan foi mais um de nossos Heróis nacionais, homem que conheceu o poder oculto de perto, se desviou dele e o combateu. Mas infelizmente, tudo o que a mão invisível do sistema toca, destrói ou cala para sempre! O mesmo aconteceu com diversos outros heróis, mas dessas vez foi com Castan, que tanto batalhou e construiu o seu próprio ambiente de combate sozinho (Revisão Editora Ltda.)

Siegfried, lhe Saudamos, pois o seu esforço não foi em vão, ficara sempre em nossas memorias, suas obras, seu esforço e sua mensagem!

A diferença entre ignorância e estupidez é a diferença entre prosperidade e miséria

Uma das mais desafiadoras e importantes tarefas de um professor de economia é ensinar aos alunos o quão pouco nós sabemos sobre o mundo.

Meu grande amigo e colega, o doutor Thomas Sowell, costuma dizer que “É necessário ter um conhecimento considerável para se dar conta de quão grande é a sua própria ignorância”.

Já o economista austríaco, e ganhador do prêmio Nobel, Friedrich August von Hayek alertou: “A curiosa tarefa da economia é demonstrar aos homens o quão pouco eles realmente sabem sobre aquilo que eles imaginam poder planejar”.

O fato de que somos extremamente ignorantes sobre como o mundo funciona é algo ignorado pelas elites políticas e progressistas que juram saber o que é melhor para nós mesmos e que, por isso, querem controlar nossas vidas.

Vejamos alguns exemplos que, embora rotineiros e triviais, mostram toda a complexidade do mundo.

Café da manhã, almoço e supermercado

Um supermercado tradicional e bem estocado possui entre 60.000 e 65.000 itens diferentes. Um supermercado de uma grande rede, como o Walmart, possui aproximadamente 120.000 itens distintos.

Agora, imagine que toda a economia tenha sido estatizada e que o governo tenha nomeado você para a tarefa de produzir e abastecer este supermercado com apenas um item: maçãs.

Toda a cadeia de produção de maçãs, agora estatizada, está sob seu comando. Sendo assim, você não pode simplesmente comprar maçãs no atacado. Já que tudo é do governo, não há mercado para os produtos. Logo, não há preços.

Consequentemente, você terá de descobrir todos os insumos necessários para cultivar maçãs, colhê-las e transportá-las ao supermercado. Você é o responsável por todas as etapas de produção e distribuição de maçãs. Vejamos apenas algumas etapas.

Você precisará de caixotes de madeira para transportar as maçãs. Contabilize todos os insumos necessários para produzir esses caixotes. Você precisa, obviamente, de madeira. Mas, para obter a madeira, será necessária uma serra elétrica para cortar as árvores. A serra elétrica é feita de aço, o que significa que minério de ferro terá de ser extraído das minas. Para isso, máquinas e equipamentos pesados de mineração serão necessários. Eles terão de ser fabricados. E não se esqueça de que todos os trabalhadores necessitam de roupas e sapatos.

A lista completa de insumos e matérias-primas necessários para apenas para levar maçãs ao mercado é incontável. Com efeito, deve ser impossível precisar um número exato. Esqueça um item — como velas de ignição ou correia do alternador — e você provavelmente não conseguirá levar maçãs ao supermercado. Imagine, então, todos os outros alimentos. (É por isso que o povo passa fome em economias socialistas).

A tarefa de abastecer um supermercado com maçãs, algo que o mercado faz diariamente sem necessitar de nenhum comitê de planejamento central dando ordens, é bem menos complexa do que gerenciar todo o sistema de saúde de um país inteiro. E, no entanto, o governo se arvora a capacidade de fazer este último.

A beleza de toda a alocação de bens e serviços feita pelo mercado, em contraste às ordens do governo, é que nenhuma pessoa precisa saber de tudo o que é necessário para levar maçãs ao seu supermercado. O sistema de preços se encarrega de tudo.

O sistema de preços, quando deixado a funcionar livremente, é um engenhoso método de comunicação e coordenação capaz de aprimorar substantivamente as condições de vida dos seres humanos. Entender o sistema de preços é entender como bilhões de indivíduos completamente estranhos uns aos outros, espalhados pelo globo, falando dezenas de idiomas diferentes, e cada um preocupado apenas com o bem-estar próprio e o de sua família, fazem escolhas e agem de uma maneira que torna completamente possível a nossa atual prosperidade — possibilitando desde a existência diária de todos os tipos de alimentos frescos nas gôndolas dos supermercados até a incrível oferta de todos os tipos de bens de consumo e de serviços à nossa disposição.

O livre mercado, em conjunto com o livre comércio e o livre sistema de preços, nos torna mais ricos ao economizar a quantidade de conhecimento ou de informação necessários para produzir bens e serviços.

Agora, pense no café da manhã. Suponha que você e sua mulher tenham comido bacon e ovos. Você tomou café e sua mulher, pó de cacau. O preço total deve ter ficado em torno de $25 a $30. Agora, quanto será que teria custado tudo se, em vez de depender da ganância de terceiros, você fosse autônomo e produzisse seu próprio café da manhã?

Você sabe criar porcos? Você sabe abatê-los? Você sabe como transformar o porco em bacon? E os ovos? Você precisa entender de galinhas. Você precisa criar galinhas. Você sabe como alimentar porcos e galinhas? Adicionalmente, você teria um grande problema com o café e o cacau, pois seu cultivo não pode ocorrer em qualquer lugar. Depende de clima e solo.

O que é realmente garantido é que seu café da manhã seria muito mais caro do que no arranjo em que você depende dos benefícios trazidos pelas habilidades de terceiros, algo que só ocorre quando há divisão do trabalho e livre comércio.

Por fim, pense em uma metrópole, como Nova York, Londres ou São Paulo. Hoje, em cada uma delas, aproximadamente 10 milhões de pessoas irão almoçar. Decidir a variedade de alimentos e a quantidade exata de comida disponíveis no lugar certo e na hora certa para fazer com que tudo funcione fluentemente é um problema de impressionante complexidade, o qual se torna ainda mais complicado pelo fato de que, normalmente, várias pessoas se decidem apenas no último minuto sobre onde irão comer e o quê.

Quem estará no controle supremo deste arranjo? Será que há um comissário ou mesmo um comitê central em cada uma destas metrópoles coordenando tudo isso? Há um ser tão onisciente capaz de tamanha façanha? Você seria capaz de coordenar todo este arranjo? Com efeito, por que um sistema tão crucial quanto este não é subsidiado? Como ele pode ser tão pouco regulado e funcionar tão bem?

Ainda mais importante: você confiaria em um político para tal tarefa? Se você não confia em um político para coordenar seu almoço, por que confiaria a ele o controle da educação de seus filhos, dos hospitais que você utiliza e das estradas nas quais você viaja?

Conclusão

O ponto principal é que cada um de nós extremamente ignorante quanto ao mundo em que vivemos. E não há absolutamente nada de errado com essa ignorância. A estupidez está, aí sim, em acreditarmos que políticos podem nos proporcionar uma vida melhor do que aquela obtida por meio de transações pacíficas e voluntárias — coordenada pelo sistema de preços — com outras pessoas de qualquer lugar da terra.

Walter Williams é professor honorário de economia da George Mason University

Educação gratuita na Dinamarca criou “estudantes eternos” que nunca se formam

Copenhague, capital da Dinamarca (Foto: Thinkstock)COPENHAGUE, CAPITAL DA DINAMARCA (FOTO: THINKSTOCK)

ADinamarca garante liberdade e condições para seus cidadãos e outros europeus conseguirem estudar sem carregar o peso de dívidas ou sofrer com a pressão de entrar na vida adulta imediatamente. No país, os estudantes recebem uma ajuda de custo mensal do governo e não pagam mensalidade. Um ótimo incentivo, certo? Não exatamente. Nos últimos anos, a Dinamarca viu o número de pessoas que prolongam seus estudos além do tempo necessário aumentar. Criou até um termo para descrevê-las: evighedsstuderende (“os eternos estudantes”, em dinamarquês).

Segundo o Business Insider, trata-se de pessoas que permanecem nas faculdades por seis anos ou mais, sem planos de se formar, simplesmente porque não têm um incentivo financeiro para sair e parar de receber a ajuda do governo. Alguns dinamarqueses, principalmente cidadãos mais velhos, que já trabalharam, defendem que essa liberdade extra concedida pelo governo elimina o senso de urgência das pessoas com “vinte e poucos anos” para começarem a seguir uma profissão de fato.

Emenda na lei
Por anos, a Dinarmarca tem contado com um programa que garante aos estudantes uma ajuda de custo mensal de US$ 1000 para cobrir as despesas básicas. Daniel Borup Jakobsen, recém-graduado que trabalha como VP da empresa de tecnologia Plecto, disse ao Business Insider que essa “bolsa” faz com que as pessoas permaneçam num estado apático.

Uma das medidas para tentar alterar esse estado de indiferença e aumentar o senso de urgência dos estudantes veio em 2015, quando o governo dinamarquês propôs e aprovou uma emenda que dá às universidade maior poder para pressionar estudantes a terminarem a graduação. Milhares de estudantes protestaram contra a medida, afirmando que era uma forma de remover suas liberdades. Os defensores, porém, afirmaram que ela permitiria tornar o sistema universitário mais eficiente e, inclusive, retornar mais dinheiro à sociedade — a estimativa do governo era de US$ 266 milhões.

“Quando essa reforma no programa estudantil foi aprovada, os estudantes gastavam entre um ano e um ano e meio a mais do que deveriam”, disse Søren Nedergaard, ministro de Educação e Ciência à revista The Atlantic. Segundo o ministro, a emenda reduziu a tendência dos alunos em se prolongarem na universidade, mas os “estudantes eternos” ainda marcam presença nos campi. Muitos ainda pegam um último ano extra de estudos, para fazer apenas algumas aulas e viajar ao exterior.

De todo modo, o ministro rejeitou a ideia de que o ensino gratuito é algo negativo — por gerar esse efeito de os estudantes demorarem para se formar. “Alguém que olha de fora pode se questionar se os estudantes que não pagam para estudar podem ficar tão motivados quanto aqueles que pagam. Minha impressão é que as duas coisas não estão correlacionadas. Tenho a crença que sua motivação para ser bem-sucedido nos estudos não está conectado com o fato de você pagar ou não por ele”, disse.

http://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2017/11/educacao-gratuita-na-dinamarca-criou-estudantes-eternos-que-nunca-se-formam.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compartilharMobile

Batalha dos Porongos – 170 anos

Em novembro terá um dia em especial para ser tristemente lembrado da Revolução Farroupilha, é o dia que marca a Batalha dos Porongos, ou como o Massacre dos Porongos como é dito por muitos, o que é certo é que neste dia será dedicado a lembrança de negros guerreiros que pelearam junto com o farroupilhas e acabaram massacrados na madrugada de 14 de novembro de 1844, se foi traição, quem poderá nos afirmar, o que é certo é que muitas vidas foram ceifadas naquela fatídica madrugada.
Alguns historiadores já confirmam que foi um pacto entre Canabarro e Caxias, ou seja, traição de um general que por muito tempo foi tido como herói.

Abaixo um texto extraído do Jornal Diário Popular de Pelotas que conta um pouco da trágica batalha.

Porongos: surpresa ou massacre?

O Cerro dos Porongos é um lugar pálido em setembro, quando os campos estão desbotados pelo inverno e o gado está espalhado, dividido em pequenos grupos nos poucos lugares onde o pasto surge mais úmido. Do alto da colina é possível enxergar os campos que se estendem até onde a vista alcança. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, entretanto, a sentinela das tropas farrapas não percebeu o avanço da cavalaria do coronel Francisco Pedro de Abreu, o Moringue. Antes que a manhã acabasse, o acampamento havia sido dizimado e os corpos de cem farrapos – 80 deles integrantes do 1º Corpo de Lanceiros Negros – recobriam o cerro e os campos a sua volta.
O combate de Porongos é, talvez, a história mais controversa de toda a Revolução Farroupilha. Até hoje historiadores e pesquisadores tentam responder se houve ou não traição nas coxilhas de Pinheiro Machado. O grupo que defende a tese da não-traição refere-se ao episódio como “A Surpresa de Porongos”. Enquanto os que acreditam que o general David Canabarro entregou intencionalmente seus lanceiros às espadas de Moringue, chamam o combate de “O Massacre de Porongos”.
“O fator surpresa é um princípio de guerra e nele não há chance de reação e foi o que houve. Canabarro foi vítima de uma intriga, que acabou passando como verdade para a história”, defende Cláudio Moreira Bento, historiador e coronel reformado do Exército Brasileiro, autor de 70 livros, a maior parte deles sobre história militar.
Para o professor José Plínio Fachel, coordenador do curso de História da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), os números da batalha – cem farrapos mortos, nenhum imperial morto ou ferido – servem como a sombria confirmação sobre o que aconteceu. “Todos os documentos e o desenrolar da batalha fazem com que a historiografia atual seja praticamente consensual sobre o conluio da minoria farrapa com os imperiais. O tempo é amigo da verdade e, hoje, o que era negado passa a ser aceito pela história oficial.”

Dois campos para a mesma batalha

As controvérsias em torno de Porongos cercam até mesmo o lugar onde o combate foi travado. Hoje, dois marcos – um do Movimento Tradicionalista Gaúcho e outro do Movimento Negro – distantes mais de um quilômetro um do outro indicam locais diferentes para o episódio. E, conforme o pesquisador Artêmio Vaz Coelho, 56 anos, os dois estão errados. “Acredito que o alto de uma coxilha não seja o local mais apropriado para se montar um acampamento de guerrilheiros”, justifica.
O trabalho como agrônomo agrimensor possibilitou a Coelho percorrer uma infinidade de propriedades da região e de seus proprietários ouviu uma série de relatos sobre Porongos. Com base nestas histórias defende que o acampamento das tropas farroupilhas naquele final de primavera em novembro estava atrás dos cerros onde estão fincados os marcos.
O local apontado por Coelho é uma estreita e extensa clareira protegida pelo mato entrecortado por uma sanga de águas cristalinas. Ali, as coronilhas, murtas e caneleiras formam uma uma espécie de cúpula tornando possível esconder homens e cavalos tanto à noite como durante o dia.
Depois de ter resgatado a história do combate e dos lanceiros negros, Coelho quer ver resolvida a polêmica em torno do local onde ocorreu o massacre ou a surpresa de Porongos, pois assim acredita estar contribuindo para revisar uma das histórias mais polêmicas do Rio Grande do Sul. “A gente não sabe por que está no mundo, pode ser que daqui há uns dez anos a gente possa ver este assunto esclarecido, não é mesmo?”

O COMBATE
COMANDANTES: Bento Gonçalves (F) x Soares Paiva (I)

Farroupilhas- Imperiais
Mortos 100 – –
Feridos – – 4
Prisioneiros – – –

A preservação de uma história sem fim

Foi em uma barbearia no centro de Pinheiro Machado, que a história dos lanceiros negros começou a ser resgatada em 1996, ou seja, 152 anos depois do combate. Naquele dia de inverno um amigo pediu a Artêmio Coelho uma sugestão para inovar no desfile de 20 de Setembro. “Falei sobre a infantaria negra de Canabarro e por mais impressionante que seja, por aqui ninguém lembrava de ter ouvido falar”, conta. Coelho atribui o desconhecimento ao fato da Revolução Federalista (1893) ter apagado as lembranças coletivas sobre a Guerra dos Farrapos. “A Federalista marcou esta gente, que sofreu muito naquele período”, justifica.
A partir daquele dia, o agrônomo converteu-se em pesquisador e passou a buscar todo o tipo de informação sobre os lanceiros, descritos assim por Giuseppe Garibaldi em suas memórias redigidas por Alexandre Dumas: “Suas lanças, seus rostos pretos como azeviche, seus robustos membros e sua perfeita disciplina tornara-os o terror dos inimigos”.
Meses depois, a comunidade da pequena cidade do sul do estado assistia ao inédito desfile de uma tropa de infantaria negra, orgulhosamente vestida com réplicas dos uniformes da época. À frente deles, Coelho seguia fazendo as vezes do tenente-coronel Joaquim Teixeira Nunes. “Enquanto seguíamos para a avenida do desfile, um cidadão que nos viu passando, chegou a parar o carro e tirar o chapéu em sinal de respeito. Acho que ele pensou que era uma tropa oficial”, orgulha-se.

Memória e tradição

O resgate da história do combate Porongos colocou o município na rota do turismo cultural do estado, que deverá ganhar um novo fôlego a partir da inauguração do memorial financiado pela Fundação Palmares, que já adquiriu a área em torno do local onde está fixado o marco do Movimento Negro. A idéia é transformar os campos que serviram de mortalha aos lanceiros em local de lazer e possibilitar a realização de escavações arqueológicas com o objetivo de trazer, literalmente, à tona o restos sepultados do combate que se transformou primeiro em massacre e depois em lenda.

Fonte: Jornal Diário Popular (Pelotas)

Resistência, Imperialismo e Contradições na Guerra na Síria

O imperialismo é o mecanismo que busca controlar militarmente e economicamente o mundo. É por meio de um sistema capitalista, e da exportação de grandes corporações, que se pode impor a própria dominação sobre Estados mais fracos. O imperialismo é o que ocorre quando corporações multinacionais ou um Estado, particularmente da Anglosfera, pode extrair matéria-prima como petróleo e metais preciosos ou impor dominação econômica e militar sobre outro Estado sem ser responsável perante ninguém ou sem dividir os lucros com o povo. No entanto, isso não se reduz apenas à matéria-prima ou à dominação militar: é também é o meio pelo qual o dólar americano, em particular, seja a moeda hegemônica no planeta. Aqueles que não se encaixam nos paradigmas do comércio em dólar americano, ou em ter seus recursos naturais sob controle corporativo ocidental, se tornam alvos.

Isso foi visto com a derrubada e assassinato do coronel Muammar Gaddafi na Líbia, quando ele planejou descartar o dólar americano e criar uma moeda pan-africana lastreada em ouro (Sputnik, 2016). Isso também foi visto no Iraque quando Saddam Hussein foi derrubado e executado quando deixou de fazer comércio em dólares americanos em favor do eurodólar (Paul, 2008: 265). Isso também é visto hoje com a intensa beligerância do presidente americano Donald Trump contra o líder norte-coreano Kim Jong-Il após ter sido descoberto, em junho de 2017, que o país tem trilhões de dólares em minérios não-extraídos como ouro, ferro, zinco e cobre (Weller, 2017). Apesar de Washington sempre utilizar a retórica de violações dos direitos humanos no Iraque, Líbia e Coreia do Norte como justificativa para a agressão americana, deve-se questionar os motivos pelos quais Washington não só tolera, mas está aliada a um reino puritano como a Arábia Saudita (que executa homossexuais e não permite que mulheres dirijam); ou por qual motivo os EUA terem apoiado todos os golpes direitistas na América Latina, que têm levado ao extermínio de centenas de milhares de pessoas, especialmente entre socialistas, comunistas e camponeses.
Ao invés, a beligerância dirigida pelos EUA contra Iraque, Líbia e Coreia do Norte não é por razões humanitárias, mas porque estes Estados não se submeteram à órbita do Império Americano.
Porém, a história do imperialismo também é uma história de resistência. Resistências derrotadas, como a catástrofe de Salvador Allende contra o golpe de Pinochet apoiado pelos EUA no Chile em 1973; a derrubada de Saddam Hussein em 2003 pelo exército americano invasor e o assassinato de Gaddafi em 2011 por jihadistas apoiados pelos EUA estão entre muitas. Porém, há momentos na história em que foram vistas resistências bem sucedidas ao imperialismo, particularmente os sucessos dos irmãos Castro em Cuba; a vitória vietnamita contra o Império Americano expansionista e a resiliência do povo sírio na guerra atual.
Por que a Síria é um alvo das forças imperialistas?
A Síria é um dos poucos Estados no mundo, desde a Guerra do Vietnã, que tem resistido ao imperialismo americano até a exaustão e a retirada quase que completa de Washington. Apesar da Guerra síria ainda estar em andamento, nós vimos Trump cortar o financiamento da CIA a grupos jihadistas em julho de 2017, demonstrando o lento recuo dos EUA na Síria (Sanger, Schmitt e Hubbard, 2017).
Porém, a questão mais crítica que devemos ponderar é: por que a Síria tem sido alvo do Império Americano? Os dois pontos principais nessa questão são o papel da Síria no Eixo da Resistência e sua localização geoestratégica na encruzilhada da diplomacia dos oleodutos.
O Eixo da Resistência é uma coalizão entre Irã, Síria e o grupo paramilitar xiita libanês Hezbollah, e se mostrou uma poderosa força anti-imperialista, anti-ocidental e antissionista no Oriente Médio (Antonopoulos e Cottle, 2017: 99). Apesar de comentaristas afirmarem que o Eixo da Resistência é um eixo xiita pelo fato do Irã ser uma teocracia xiita, pela Síria ser governada por um presidente alauíta e pelo Hezbollah ser uma milícia xiita, essa análise simplista ignora que o Irã é uma República Islâmica multiétnica, ao passo que a Síria é uma república nacionalista árabe secular. Tais formas de governo, normalmente, estariam em lados opostos, mas por causa da visão compartilhada de que o Oriente Médio deveria estar livre de ambições e intervenções imperialistas, isso forçou estes Estados a se alinharem um com o outro.
A derrubada do xá pró-americano no Irã em 1979 viu uma mudança de poder que desafiaria diretamente os desígnios hegemônicos dos EUA na região, e mais importantemente, ameaçaria seu parceiro mais importante no Oriente Médio, a entidade sionista conhecida como Israel. Com um Irã poderoso revigorado por um zelo religioso e afirmando abertamente desejar exportar sua revolução e derrotar Israel em um confronto militar, o novo Aiatolá não poderia ser tolerado pelos EUA. O alinhamento da Síria à República Islâmica do Irã não se baseia em uma afiliação religiosa compartilhada, mesmo que os alauítas sejam um derivado do Islã xiita, mas sim pelos dois Estados serem diretamente afetados pela existência de Israel e do imperialismo americano.
A Síria, atualmente, hospeda 600 mil refugiados palestinos, e Israel ocupou as Colinas de Golã, ricas em petróleo, desde a Guerra dos Seis Dias em 1967, quando a entidade sionista capturou o território (Zaman al-Wasl, 2014). O Irã, por outro lado, se vê como a principal nação islâmica e sustenta que é dever de todos os muçulmanos participaram na luta pela causa palestina. É por essa razão que a hostilidade partilhada contra Israel, e a luta contra o imperialismo americano, forçou o Eixo da Resistência a existir. Porém, apesar da ameaça a Israel, por que o Eixo da Resistência é completamente intolerável aos desígnios de Washington no Oriente Médio?
O ponto mais importante concerne petróleo e gás, particularmente os oleodutos/gasodutos. No início da Guerra na Síria, um gasoduto catari-turco, que levaria gás do Catar do campo de gás condensado irano-catari Pars sul/Domo norte aos mercados europeus com um duto que passaria pela Síria, foi proposto: o gasoduto proposto foi rejeitado por Damasco, com a Agence France-Presse afirmando que Assad se recusou a assinar o acordo do gasoduto para “proteger os interesses de seu aliado russo, que é o principal fornecedor de gás natural da Europa” (Antonopoulos e Cottle, 2017: 90). Porém, do mesmo campo de gás, mas na porção controlada pelo Irã, a Síria foi receptiva à construção do Gasoduto Islâmico no período pós-guerra, com o gasoduto passando pelo Iraque, Síria e rumo à Europa. O correspondente da Asia times, Pepe Escobar, afirmou que “O gasoduto Irã-Iraque-Síria – se chegar a ser construído – solidificaria um eixo predominantemente xiita com um cordão umbilical econômico de aço” (Escobar, 2010). Um eixo composto por Irã, Iraque e Síria não se dá por identidade religiosa, como já foi enfatizado, mas por necessidades econômicas e geopolíticas.
A Guerra na Síria apresenta uma oportunidade para os EUA destruírem a proposta do Gasoduto Islâmico ao derrubarem o pró-iraniano Assad em Damasco, o que isolaria Teerã ainda mais. Isso é especialmente verdadeiro na medida em que a Síria é o único Estado árabe aliado ao Irã. Não obstante, não é apenas a energia iraniana que está sendo comprometida por causa da dificuldade em ter gás e petróleo iranianos alcançando mercados europeus por causa do caos na Síria e no Iraque, mas também a energia síria sendo explorada por Israel.
A descoberta de petróleo nas Colinas de Golã, ocupadas por Israel, serve como uma razão importante para que a Síria seja alvo das potências imperialistas. A empresa Genie Energy recebeu direitos exclusivos para a exploração e perfuração deste petróleo. O Conselho Diretor da Genie Energy inclui o 46º vice-presidente dos EUA, Dick Cheney; o ex-chefe da CIA, e presidente da Fundação para Defesa das Democracias, James Woolsey; Jacob Lord Rothschild da dinastia bancária londrina e o magnata midiático Rupert Murdoch (Genie Oil Gas, 2017).
É por causa de considerações energéticas e de segurança que Israel apoia as ambições imperialistas americanas na destruição do Estado sírio. As Colinas de Golã, que possuem uma população indígena de 20 mil drusos sírios, estão agora sendo numericamente superados por aproximadamente 25 mil colonos israelenses (Baker, 2017). Apesar da ONU e de Washington não terem reconhecido o controle israelense sobre as Colinas de Golã, a extração de recursos sírios serve não só para fortalecer os interesses capitalistas americanos e israelenses, mas também enfraquece a Síria na medida em que ela perde renda que poderia ser utilizada para o fortalecimento estatal ou para pagar sua dívida externa cada vez maior no período pós-guerra que se aproxima. O Eixo da Resistência representa a única ameaça real ao Estado israelense e, portanto, a longa guerra contra a Síria tem o potencial de enfraquecer a coalizão.
Apesar de Israel não ter se engajado em um ataque frontal direto contra a Síria, ele faz o bastante para atacar sistematicamente o Hezbollah e preservar forças jihadistas que combatem o Exército Sírio perto das Colinas de Golã. O Ministro da Defesa de Israel afirmou em 2015 que “(…) a nível estratégico, em outras palavras, nós não estamos intervindo em benefício de quem quer que seja” (Fishman, 2015). Israel enxerga a longa guerra contra a Síria como algo benéfica para si.
Com Washington classificando Irã e Síria como parte do “Eixo do Mal”, e o Hezbollah designado como uma organização terrorista, fica cada vez mais claro que a política externa americana no Oriente Médio está estrategicamente dirigida para isolar e cercar completamente o Irã (Segell, 2005: 166). Porém, diferentemente das suas invasões no Afeganistão e no Iraque, nas fronteiras oriental e ocidental do Irã, respectivamente, os EUA tentaram expandir sua rede neocolonial através de guerra de proxy e financiando secretamente organizações terroristas.
O respeitado acadêmico de esquerda Michael Parenti afirma que uma “Terceiromundização” dos EUA já começou (Parente, 1995). O que se quer dizer efetivamente com isso é que tem havido uma aceleração do empobrecimento da sociedade civil por causa do interesse de Washington em servir corporações transnacionais. Parente afirma que o império militar global americano é impulsionado pela ideia de garantir a expansão de capital. Com isso explicado, o não-alinhamento sírio com os EUA limitou a expansão do capital americano no país, fazendo dele, assim, um alvo direto do imperialismo americano.
Deste modo, os principais motivos pelos quais a Síria é alvo do Império Americano são sua ideologia antissionista e a resistência em permitir influência americana no país. É somente por causa do desejo americano de controlar o fluxo de gás e petróleo do Oriente Médio que a destruição do Estado sírio se tornou um imperativo, permitindo que corporações ocidentais controlem o petróleo sírio e que oleodutos/gasodutos de países pró-americanos passem livremente pela região.
Como visto na Líbia, a OTAN, controlada pelos EUA, não queria necessariamente governar a Líbia, mas garantir que os planos para troca de moeda comercial fossem paralisados e que o controle corporativo do petróleo fosse atingido. O sucesso do Experimento Líbio de Washington foi replicado na guerra de proxy da América contra o Estado sírio. Porém, os planejadores políticos e militares dos EUA não conseguiram reconhecer que, diferente de uma Líbia isolada, a Síria tem aliados dispostos a interferir, como foi visto no envio de tropas do Hezbollah à Síria em 2012; no envio de conselheiros militares iranianos em 2012 e na intervenção aérea russa, que começou em setembro de 2015. A Líbia não recebeu esse tipo de ajuda quando as ambições imperialistas se dirigiram contra ela, isolando completamente o Estado através de um cerco.
A Síria, porém, sempre foi alvo dos imperialistas americanos, razão pela qual a onda da chamada Primavera Árabe finalmente abriu a oportunidade para desestabilizar o país. No início da invasão americana no Iraque de 2003, o general Wesley Clark, um general 4 estrelas aposentado do exército americano, e Supremo Comandante da OTAN durante a Guerra da Iugoslávia de 1999, revelou que ele tomou ciência, em 2002, de um plano estabelecido no qual os EUA realizaram intervenções no Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, finalmente, Irã (Antonopoulos e Cottle, 2017: 12). Apesar disso não ocorrer dentro do prazo de cinco anos do qual o general Wesley Clark tomou conhecimento, nós temos visto a desestabilização de todos esses países desde 2003, com a exceção do Irã, que, ao contrário, tem resistido com sucesso à intensa campanha de sanções contra ele.
A Contradição Americana na Síria:
Apesar da Guerra Síria ter apresentado a Washington uma oportunidade para derrubar o governo anti-imperialista em Damasco, ela também expôs a farsa que é a Guerra contra o Terrorismo liderada pelos EUA. Tal como aconteceu na Líbia, onde todas as medidas foram tomadas para derrubar Gaddafi, inclusive financiar, armar e apoiar forças jihadistas: o mesmo ocorreu na Síria, onde uma gama de grupos militantes receberam o mesmo apoio que seus colegas mujahedeen na Líbia. Porém, a diferença mais importante é que Gaddafi foi derrubado e assassinado em um curto período de tempo, diferente de Assad, que não só sobreviveu, mas se fortaleceu desde 2011. Isso não foi antecipado por Washington, e quanto mais a Guerra na Síria se arrasta, mais exposto o apoio americano a grupos ligados à al-Qaeda, e outras organizações terroristas como o ISIS, tem se revelado.
Em um exemplo, o grupo terrorista Al-Zinki decapitou, em 2016, uma criança palestina de 12 anos de idade em Aleppo, sob a alegação de que ele era um combatente (Adra, 2016). Isso é significativo, já que, até 2015, essa organização terrorista era financiada e armada pela CIA (Chulov, 2016).
Em outro caso, em outubro de 2017, foi revelado que Abu Khalid al-Sharqiya, um comandante da organização terrorista Ahrar al-Sharqiya (que havia sido anteriormente apoiada pelos EUA), foi filmado estuprando uma adolescente na cidade de Jarablus ao norte de Aleppo (Antonopoulos, 2017).
Jarablus é atualmente controlada por grupos terroristas apoiados pela Turquia depois que a cidade foi capturada do ISIS em 24 de agosto de 2016.
Apesar de ser sabido que os EUA tem apoiado secretamente o ISIS e a al-Nusra, o que estes dois exemplos demonstram é que os EUA estavam apoiando de forma aberta e direta estes grupos sob a justificativa de que eles seriam rebeldes moderados. Ao contrário, há duas possibilidades: ou os EUA não sabiam quem eles estavam apoiando em um frenesi por apoiar qualquer grupo que estivesse combatendo o Exército Sírio ou eles sabiam das ideologias extremistas destes grupos, mas as apoiavam ainda assim, contradizendo sua suposta Guerra ao Terrorismo.
Evidências da colaboração entre EUA e ISIS também têm se apresentado. Um exemplo é o ataque aéreo da coalizão contra as montanhas Thardeh nos arredores de Deir Ezzor no leste da Síria, em setembro de 2016, quando jatos da coalizão, inclusive com envolvimento da Austrália, mataram 82 soldados sírios (Antonopoulos, 2016). Em poucos minutos da conclusão do ataque aéreo, o ISIS assaltou as posições do Exército Sírio, expulsando forças do governo dos picos da montanha, que perderam boa parte do território. Isso levou vários comentaristas políticos e meios midiáticos a sugerirem que este era um exemplo do Ocidente colocando a mudança de regime na Síria acima do combate ao terrorismo.
O presidente russo Vladimir Putin, quase 1 mês depois do ataque, disse em uma entrevista concedida à televisão francesa:
“Nossos colegas americanos nos disseram que este ataque aéreo foi um equívoco. Este equívoco custou as vidas de 80 pessoas e, por coincidência talvez, o ISIS assumiu a ofensiva imediatamente depois. Ao mesmo tempo, nas fileiras mais baixas, no nível operacional, um militar americano comentou de forma bem franca que eles passaram vários dias preparando este ataque. Como ele teria sido um erro se foram vários dias de preparação?” (RT, 2016).
O exército sírio disse que os ataques aéreos eram “um ataque sério e claro à Síria e ao seu exército” e “prova firme do apoio americano ao ISIS”, com a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, aformando que após “o ataque ao exército sírio, chegamos à terrível conclusão de que a Casa Branca está defendendo o Estado Islâmico” (Deeb, 2016).
Porém, excetuando o apoio americano a grupos ligados à al-Qaeda na Síria, os EUA também são apoiadores das Forças Democráticas Sírias (SDF), que são ligadas às Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG). A YPG está sob o “guarda-chuva” do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que são reconhecidos como uma organização terrorista internacional por Washington. Isso novamente demonstra a contradição da política americana na Síria, na qual eles abertamente apoiam a YPG, mas reconhecem seu grupo fundador na Turquia e Iraque como uma organização terrorista.
O Secretário de Defesa dos EUA, à época Ashton Carter, elogiou a YPG em março de 2016 como tendo “demonstrado ser uma excelente parceira na luta contra o ISIL. Nós somos gratos por isso e pretendemos continuar a fazê-lo, reconhecendo as complexidades de seu papel regional” (Hurriyet Daily News, 2016). Forças de Operação Especial dos EUA, operando ilegalmente na Síria, são usualmente vistas utilizando patches da YPG em seus uniformes (Bertrand, 2016). Em resposta, o Ministro de Relações Exteriores da Turquia, Meylut Cavusoglu, criticou as tropas americanas utilizando patches da YPG, dizendo que:
“Neste caso, recomendamos que eles usem patches do Daesh, da al-Nusra e da al-Qaeda quando forem a outras partes da Síria, e do Boko Haram quando eles forem à África. Àqueles que dizem não considerar a YPG como sendo o mesmo que esses grupos terroristas, essa é a nossa resposta: isso é aplicar dois pesos e duas medidas, isso é ser duas caras” (Fraser e Balder, 2016).
A Turquia, particularmente, vê o PKK como uma organização terrorista e tem combatido sua insurgência por décadas. A Turquia é um membro central da OTAN, liderada pelos EUA, e essa discordância sobre os curdos tem sido uma razão importante na deterioração das relações entre os dois Estados.
Contradição Anti-Imperialista Ocidental na Síria:
O aspecto mais confuso do conflito sírio foi a resposta da maioria das organizações de esquerda anti-imperialistas do Ocidente. Embora a maioria dos Estados pós-coloniais, e seus respectivos partidos de esquerda, bem como os ex-Estados soviéticos, tenham apoiado o governo sírio desde o início da guerra, a maioria dos grupos esquerdistas ocidentais, com exceção de um pequeno número de organizações comunistas não-trotskistas, apoiaram grupos militantes reacionários na Síria.
A esquerda ocidental olha a guerra na Síria como uma revolução interna, levada a cabo por forças progressistas para derrubar uma ditadura brutal, enquanto a maioria da esquerda em Estados pós-coloniais reconhece os fatores externos e as ambições imperiais que estão em curso na Síria. Enquanto isso, a esquerda ocidental, mascarada como anti-imperialista, se recusa a reconhecer os projetos imperialistas na Síria por parte dos Estados Unidos, Israel, Turquia e Arábia Saudita. Por esse motivo, é comum que eles sejam referidos como a “esquerda imperialista”.
Como a maioria na esquerda imperialista no Ocidente não tem memórias históricas de serem colonizados pelas potências imperiais, eles geralmente vêem o mundo através do paradigma apenas de uma luta de classes entre capitalistas e trabalhadores. Assim, com a erupção da Guerra na Síria, eles não reconheceram os fatores externos em jogo e acreditavam que se tratava de uma luta dos trabalhadores contra uma ditadura que tolerava uma classe burguesa. Essa visão simplista, de não reconhecer fatores externos, também significou o apoio da esquerda imperialista à derrubada do coronel Gaddafi. É através deste mecanismo simplista que a esquerda imperialista aplica o seu Complexo do Salvador Branco e vê o mundo pós-colonial como consistindo em dois tipos de pessoas: ditadores e vítimas.
É o entusiasmo pelo YPG desempenhar o papel das vítimas que ganhou os corações da esquerda imperialista. O YPG é apresentado como uma resistência contra grupos extremistas, especialmente o ISIS, e contra a chamada ditadura brutal de Bashar al-Assad. Ao ter mulheres posando com armas e bandeiras de Che Guevara, eles são apresentados como uma força progressiva com valores marxistas e seculares. Enquanto os EUA entravam em contradição ao apoiar um ramo de uma organização que eles identificavam como uma organização terrorista, os YPGs são contraditórios ao se apresentarem como marxistas anti-imperialistas, mas serem completamente dependentes e aliados ao Império dos EUA. A esquerda imperialista ignorou essa contradição e continuou a apoiar o YPG cegamente.
O YPG deixou claro o seu desejo de federalizar a Síria, com elementos mais extremos da organização desejando a independência completa. Embora o YPG afirme ser tolerante com as minorias étnicas, na realidade, vimos o assassinato de assírios em Qamishli e a limpezas étnicas em aldeias árabes. Além dos objetivos de separatismo e de limpeza étnica, a esquerda imperialista ignora que o YPG também usa crianças como soldados. O YPG nem sequer tentou esconder o fato de que eles usavam crianças como soldados e, muitas vezes, publicaram imagens de crianças mártires.
O pai de uma menina de 14 anos, próximo a cidade de Qamishli, no norte da Síria, revelou como sua filha foi lutar com o YPG. Ele afirmou: “Minha filha foi para a escola e foi tirada de lá por um grupo do YPJ. Nós não sabíamos nada sobre ela até que um comandante do YPJ nos ligasse e nos contasse que ela se juntou ao YPJ” (Human Rights Watch, 2015). Em 5 de julho de 2015, o YPG emitiu uma circular para comandantes e chefes de centros de recrutamento, dizendo que estes não deveriam recrutar ou aceitar qualquer pessoa com menos de 18 anos e que aqueles que não cumprissem a diretriz enfrentariam “medidas disciplinares máximas” (Ibid).
No entanto, os EUA, em seu relatório anual sobre o tráfico de seres humanos, declararam que:
“Apesar de terem assinado uma promessa de compromisso com uma organização internacional em junho de 2014 para desmobilizar todos os combatentes menores de 18 anos, as Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG) recrutaram e treinaram crianças de até 12 anos em 2016”(Departamento de Estado dos EUA , 2017).
O viés não pode ser questionado, considerando que o YPG são os aliados mais próximos dos EUA na Síria, e suas revelações surpreendentes revelaram o uso continuado de crianças como soldados na Síria. A esquerda imperialista escolhe ignorar este crime de guerra grosseiro do YPG.
Eles também optam por ignorar sua operação de limpeza étnica. Pesquisadores da Anistia Internacional visitaram 14 cidades e aldeias nas províncias de al-Hasakeh e al-Raqqa, no norte da Síria, controladas pelo YPG em julho e agosto de 2015, para investigar o deslocamento forçado de moradores e a demolição de residências (Anistia Internacional, 2015). No entanto, as Nações Unidas rebateram a declaração feita pela Anistia Internacional, afirmando que:
“Apesar de alegações de ‘limpeza étnica’ continuarem a ser recebidas durante o período de investigação, a Comissão não encontrou evidência para substanciar acusações de que o YPG ou o SDF tenham alguma vez atacado as comunidades árabes com base na etnia, nem que as autoridades cantonais da YPG tentaram sistematicamente alterar a composição demográfica dos territórios sob seu controle através da prática de violações dirigidas contra qualquer grupo étnico em particular. Em todo o norte da Síria, o SDF ou o YPG deslocaram comunidades para limpar as áreas minadas pelo ISIS durante sua retirada” (Antonopoulos, 2017).
No entanto, a evidência é que apenas as comunidades árabes foram evacuadas, sob o pretexto de que elas seriam alvo de aeronaves da coalizão, e a Anistia Internacional forneceu imagens de satélite que mostravam blocos inteiros destruídos, que não foram resultado da luta contra o ISIS (Anistia Internacional, 2015). Uma dessas imagens de satélite mostrou a escala das demolições na aldeia de Husseiniya, com 225 edifícios em junho de 2014, mas apenas 14 restantes em junho de 2015: uma redução chocante de 93,8% (Ibid). Uma testemunha ocular afirmou que: “Eles nos retiraram de nossas casas e começaram a queimar a casa (…) eles trouxeram as escavadeiras (…) eles derrubaram casa após casa até que a aldeia inteira foi destruída” (Ibid).
As cidades são destruídas porque o YPG acredita que os árabes na região são simpatizantes e apoiadores do ISIS. Isso fornece o pretexto para que o YPG limpe etnicamente aldeias e cidades não-curdas, criando uma mudança demográfica a seu favor. Mais uma vez, a esquerda imperialista nega esses crimes de guerra, e de limpeza étnica, e ainda vê o YPG como uma força progressista e tolerante, quando, na realidade, seus objetivos visam um Estado curdo homogêneo.
O aspecto mais confuso do apoio da esquerda imperialista ao YPG é a contradição do apoio dos EUA ao grupo. A esquerda imperialista se define como um movimento progressista anti-imperialista, no entanto, o YPG, que também se retrata como um grupo marxista-leninista, depende inteiramente da maior potência imperial no mundo atual: os Estados Unidos. Essa contradição também é ignorada pela esquerda imperialista, que apoia diretamente a política externa dos EUA na Síria.
Conclusão:
A Guerra na Síria provou ser uma das guerras mais mortíferas deste século até agora. Ao contrário da Guerra do Iraque em 2003, onde houve uma invasão direta dos EUA, a Síria viu a implementação do modelo líbio contra ela: [modelo que] falhou. Assad conta com o apoio da maioria do povo, e juntamente com aliados como Hezbollah, Irã e Rússia, assegurou a sobrevivência do Estado sírio.
Não é necessariamente a sobrevivência de Assad que deve ser apoiada, mas a sobrevivência de um Estado sírio secular, com sua sua soberania respeitada. O governo sírio fornece saúde e educação gratuitas para a sua população, subsidiando muitas necessidades. É por isso que a Síria tem sido um modelo e tem servido de inspiração para muitos Estados pós-coloniais, que têm visto os sucessos alcançados, apesar das constantes guerras da entidade sionista, recursos limitados e mão-de-obra limitada.
A Síria não só sobreviveu, mas também resistiu ao imperialismo dos EUA contra ela. Esta guerra não enfraqueceu a Síria, mas, ao contrário, fortaleceu a unidade nacional, o apoio ao governo e o apoio ao exército. O que o fracasso dos EUA na Síria demonstra é o declínio do Império Americano. O Império Americano não conseguiu subjugar e isolar o Irã; não conseguiu destruir o Hezbollah; não conseguiu levar a fome à Coréia do Norte e, nos últimos tempos, não substituiu o bolivarianismo na Venezuela por forças pró-americanas neoliberais.
Na medida em que os Estados pós-coloniais se galvanizam e reivindicam cada vez mais sua legítima soberania, o Império Americano enfraquece, auxiliando na criação de um mundo mais equitativo, onde as corporações ocidentais não representam o auge da civilização. O sucesso da sobrevivência da Síria demonstra essa mudança de ordem mundial, especialmente com uma Rússia ressurgente e com uma ascensão chinesa, que eliminou o mundo unipolar de curta duração que existia desde o colapso da União Soviética em 1991.
A sobrevivência da Síria também desafia a perspectiva da esquerda imperialista perante Estados pós-coloniais. Enquanto as organizações stalinistas e maoistas reconhecem a necessidade de apoiar a sobrevivência do Estado sírio contra a agressão imperialista, a esquerda imperialista, que constitui a maioria da esquerda no Ocidente, especialmente os trotskistas e os cliffitass, apoia a agressão imperialista. No entanto, ao olhar para organizações de esquerda de Estados pós-coloniais ou ex-soviéticos, elas quase unilateralmente apoiam a Síria, incluindo partidos comunistas na Síria, Líbano, Turquia e de outros Estados regionais.
Portanto, é justo anunciar que, após as guerras brutais no século 21 contra o Iraque e a Líbia, a Síria representa uma ordem mundial em mutação, onde a resistência contra o Império Americano pode ter sucesso. O sucesso da Síria apenas encorajou o Hezbollah e o Irã, mas ainda mais significativamente, outros chamados Estados dissidentes que não se enquadram nos paradigmas do capitalismo e do império americanos, como a Coréia do Norte, a Venezuela e a Bielorrússia. Neste sentido, não é surpreendente ver a Coréia do Norte, a Venezuela e a Bielorrússia fortalecerem seus laços com a Síria, em vez de abandoná-la, com o início da guerra. Embora Cuba e Vietnã tenham resistido com sucesso ao imperialismo norte-americano, estes foram casos isolados no século 20 e, ao longo do século XXI, veremos o declínio do poder global do Império Americano.
por Paul Antonopoulos
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