Bonde do Tigrão, as Cachorras e as novas “Senhoras” da sociedade

Volta e meia ouvimos mulheres de 25-30 anos reclamando da sociedade machista e dos vagabundos, tarados e safados. Elas tem razão de reclamar, pois a geração de homens da mesma idade delas são certamente o lixo da sociedade, poucos se salvam. Essa ressalva eu faço para poder escrever o texto que se segue, pois senão a chiadeira seria dificil de suportar.

Vamos começar pelas adolescentes da decada de 2000. Quando voce conversa com uma mulher dessa geração, que no fim da decada de 90 e inicio da decada de 2000 eram adolescentes, muitas vezes percebemos que elas tem a memória curtíssima. Elas, por exemplo, não se lembram que a cultura masculina de hoje foi produzida pelos hits daquela época, onde o Bonde do Tigrão e similares dominavam as boates, bares, inferninhos e pasmem: festas “familiares”. Portanto, a cultura sexual criada nesses anos dessas duas decadas desvalorizou a mulher de uma maneira inigualável. E o pior dado: com a ajuda delas. Quem não se lembra do grito “Solte as cachorras” nas boates noturnas e nos bares e festas “familiares”? Quem se lembra da resposta? A resposta era: “as cachorras uivavam”. Portanto, se o vagabundo de hoje não respeita a mulher, ele não pode ser culpado inteiramente: o vagabundo de hoje é produto do “meio” de ontem. E o meio cultural em que ele foi criado, mulher se considerava uma “cachorra no cio”, que uivava de prazer ao som do Bonde do Tigrão. E fica a reflexão: como se respeita alguém que não se respeita? “Ha, mas eu mereço respeito por ser mulher”. Esse argumento dela é válido? Bem, pergunte ao algoz dela, não a mim.

Converse 10 minutos com uma mulher  dessa geração do Bonde do Tigrão e observe o absurdo:
– Ela: “Meu marido não me respeita, conheci ele num baile funk, e nos divertimos muito ao som do Tigrão. Mas isso é passado”
– Blogueiro: “Então foi lá que vocês se conheceram?
– Ela: “Foi. Eu e ele uivamos muito ao som do ‘solte as cachorras’. Mas desde então as coisas foram de mau a pior, ele nunca me respeitou”
– Blogueiro: “Então ele era o cachorro no baile e tu…”
– Ela: “Ha, que saudade eu tenho desse tempo de adolescente. Como eu e meu marido erámos felizes.”
– Blogueiro: “E sua filha”?
– Ela: “Ha, sim, ela é linda, tu notou? Inteligente. Só gosta dos clássicos”
– Blogueiro: “Mozart, Chopin?”
– Ela: “Não, ela é fera dançando “Rabetão tão tão no chão’,
mc lan, e ‘vai joga o bumbum na piroca’ mc skott. Ela tem um grande futuro”
– Blogueiro: “Sim, imagino que grande futuro é esse”.

O diálogo fictício acima demonstra o absurdo de nossa sociedade e de nossa cultura atual. O primeiro dado: o meio produziu a mulher e o homem atual. E que meio foi esse? Um meio promíscuo, baseado na ideia de que a mulher não passa de uma cadela no cio, ao bel prazer dos “cachorros”. Um meio onde a mulher pouco valia, a não ser como objeto dos mais sórdidos sentimentos sexuais de pervertidos. E a mulher ajudou a criar essa cultura onde seu valor é pouco ou praticamente nada. Portanto, fica dificil entender porque elas reclamam tanto da própria cultura que ajudaram a criar. Os homens são safados, como argumentam? São. Mas reflita: eles seriam, se não houvesse o Bonde do Tigrão, os bailes funk e inferninhos, onde passaram a adolescencia ouvindo e vendo a mulher descer ao mais baixo nível possível? Duvido.

O dado concreto é que essa zona em que vivemos, conhecida erroneamente por “sociedade”, foi criada por livre e espontanea vontade de homens e mulheres que convivem juntos hoje, aos trancos e barrancos. Se o homem não merece o mínimo respeito, como não merece e isso todos concordam, a mulher também não pode exigir respeito. Respeito se exige quando a pessoa tem conciencia de que fez por merece-lo, e não vejo como uma mulher nessas condições relatadas acima pode faze-lo. Há uma crise de respeito sim, mas há uma crise primeiramente de moral, onde mulheres e homens achincalharam tanto a si mesmos, que conseguiram criar uma sociedade mais parecida com uma zona. Fazer o que agora? Nada, senhoras e senhores. “Há, mais o bandido…”. Pode ter certeza que o bandido de hoje é filho de uma “cachorra” do baile funk passado, que engravidou de um sabujo na saidinha do mesmo. Portanto, o bandido de hoje é produto do meio imundo de ontem, ele é fruto da cultura que você ajudou a criar. “Ha, mas tem uma zona perturbando minha familia”. Tem, é? Pode ter certeza que as prostitutas que lá estão, são filhas de outras zonas que tu ajudou criar no passado, quando tu não era casado ainda e andava passando o rodo nas novinhas nesses bailes malditos. Quem sabe uma das putas não seja uma das tuas filhas que tu abandonou, depois de uma rápida transa depois de um baile da vida?

Adolescente ensinando vagabundo a respeita-la através do hit “joga o bumbum na …”. Deve ser por isso que a cada dia que passa a mulher é mais valorizada em nosso país, depois de uma aula didática destas

Portanto, senhores e senhoras, vocês não tem o direito de reclamar da bagunça que é nossa nação. Vocês e unicamente vocês são os responsaveis por essa zona lambancenta e violenta em que vivemos hoje.

Eliel

http://100promiscuidade.blogspot.com.br/2017/09/bonde-do-tigrao-as-cachorras-e-as-novas.html

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BRIZOLA???? ECAAAAAAA!!!!!

As notícias vindas do Rio de Janeiro são cada vez piores, a ponto da estrutura do estado viver em simbiose com um poder paralelo exercido pelos senhores da guerra do narcotráfico. Tal como os senhores feudais de outros tempos, estes lordes guerreiam entre si na disputa por território enquanto a classe governante de jure sofisma a respeito de questões paliativas para tratar um câncer que se tornou metástase.

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Fato é que o Rio de Janeiro não se tornou este tabuleiro de War da noite para o dia. Sua concretização deve muito a extrema-esquerda. Para isso temos que voltar no tempo. O ano era 1983, quando o gaúcho Leonel Moura Brizola assumiu o governo do estado no dia 15 de março. Por sua ordem, a polícia passou a ser tolhida em suas incursões aos morros: investido no cargo de autoridade máxima do estado, Brizola determinou que as incursões só poderiam ser feitas caso os agentes observassem supostos preceitos dos direitos humanos.

Mas Brizola era um humanista? Pelo contrário. Como pode ser humanista um sujeito que se escora em açougueiros como Fidel Castro? Como pode ser humanista alguém que prega os valores de uma seita política que vê banhos de sangue como rituais de purificação necessários para a conquista do bem maior? Aliás, os direitos humanos dizem respeito a vida, propriedade, igualdade e liberdade. Os socialistas odeiam todos os valores que sustentam os direitos humanos, utilizando o direito a vida como concessão aos que se submetem a seu julgo. Logo temos que salientar o fato de que a preocupação de Brizola não era com os direitos humanos.

A determinação do governador não poderia resultar em boa coisa. Graças ao empenho de Brizola, se criou o caldo de cultura perfeito para o surgimento de ONGs financiadas por grandes corporações e entidades internacionais com dinheiro público, ONGs que supostamente defendem os direitos humanos. E que na prática defendem apenas a liberdade de criminosos praticarem seus atos contra uma população indefesa. A ação deliberada do governador também permitiu que os criminosos do Rio se tornassem os daimyos que vemos hoje.

Brizola, é bom que se diga, fez muito pouco contra a corrupção na polícia. Poderia simplesmente manter a liberdade de ação das tropas ao mesmo tempo em que reforçava o papel da corregedoria. É o que governantes sérios fazem. Quando se trata de sociopatas políticos, aí toda ação virá no sentido de destruir o Estado e colocar a sociedade de joelhos.

Muitos dizem que Brizola agiu por motivos pessoais. Sua filha Neusinha era envolvida com o tráfico e usuária de entorpecentes. Neusinha foi amante de vários traficantes, entre eles o notório Escadinha (José Carlos dos Reis Encina). Neusinha chegou até a usar um dos carros que o pai usava na campanha para governador para transportar a cocaína que traficava para um namorado. Acabou esquecendo o pacote com mais de 1 kg de pó no veículo. O governador acabou andando com a droga no carro por mais de um mês.

Brizola foi homem fundamental para a extrema-esquerda brasileira, foi quem deu aos radicais um verniz de seriedade e centrismo que propiciou a quadrilhas futuras a possibilidade de se colocar como defensor da democracia e da justiça social. Entre as aberrações criadas por Brizola estão o crime organizado no Rio, a institucionalidade do jogo do bicho com as autoridades e Dilma Rousseff, que foi parida por ele e pelo falecido ex-deputado Carlos Araújo. Como se vê, o sujeito não fez nada de bom. Embora seu legado de destruição tenha se estendido a outros governantes e também a ideologização de chefes do crime na prisão ao entrarem em contato com presos de extrema-esquerda que combatiam o regime militar, o fato é que foi Brizola o que mais colaborou para o atual estado de coisas.

ERICO BALBINUS

A calamidade monetária brasileira

A moeda é monopólio do governo. O governo está no completo controle da moeda. Sendo a moeda um monopólio do governo, a qualidade da moeda será diretamente proporcional à qualidade do governo que a gerencia.
Se o governo tem uma política fiscal ruim, se ele não gera confiança nos investidores e nos consumidores, se ele trava os investimentos, se sua política creditícia é ruim, e se ele é visto como relutante em atacar seu déficit e estancar o crescimento da dívida, então sua moeda será fraca e, consequentemente, o poder de compra dela será declinante.
Logicamente, uma sucessão de governos ruins será fatal para a qualidade de uma moeda.
Nós brasileiros somos vítimas diretas do que os sucessivos governos fizeram com o nosso dinheiro.
Segundo as estatísticas do próprio governo — o IBGE e seu Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) —, aquilo que custava R$ 100 em 1º julho de 1994 passou a custar R$ 550,12 em 31 de julho de 2016.  Um aumento de 450,12% em 22 anos.  Uma taxa média de 8,05% a cada 12 meses.
Falando de outra maneira, desde 1º de julho de 1994 até 31 de julho de 2016 (exatos 22 anos), o real já perdeu 82% do seu poder de compra.

O governo, que detém o monopólio da moeda, é um impiedoso destruidor da mesma. Mas nem toda a destruição é igual.
Setores que operam sob concorrência oferecem os bens e serviços cujos preços foram os que menos subiram nos 22 anos de real.
Mesmo com o explosivo crescimento da quantidade de dinheiro na economia nestes 22 anos — que cresceu a uma taxa média de 18,30% ao ano —, a concorrência neste setor conseguiu conter os preços, fazendo com que seu encarecimento ficasse confinado, como mostra o gráfico 2, a algo entre 4,6% e 5,9% ao ano.  Isso é um feito e tanto.
Em contraste, bens e serviços ofertados por setores regulados pelo governo e blindados da concorrência por meio de agências reguladoras conseguiram extrair preços cada vez mais altos da população.  E com uma qualidade, no mínimo, insatisfatória.
Ao passo que bens cada vez mais demandados pelo povo — como TVs, smartphones, geladeiras, eletrodomésticos, computadores, notebooks e todos os tipos de vestuário — foram os que menos encareceram, bens e serviços ofertados sob intensa regulação do governo — como planos de saúde, remédios, passagens de ônibus, energia elétrica, telefonia, TV a cabo, gasolina e diesel, pedágios, gás de bujão, taxa de água e esgoto etc. — foram os que mais dispararam.
Mesmo alguns itens que são considerados “preços livres”, como mensalidade escolar (que estão entre as que mais subiram nos preços livres), operam sob um regime de proteção estatal.  Afinal, a partir do momento em que o governo decreta ser obrigatório matricular seu filho em uma escola — sob pena de encarceramento caso você não o faça —, está criado um mercado cativo, cujos serviços devem ser compulsoriamente consumidos.  Sob esse arranjo cartelizado pelo estado, impossível os preços não dispararem.
Realmente, não é nada complicado.  Se você quer bons serviços, bons produtos, idéias inovadoras e preços contidos, você tem de ter mercados livres e concorrenciais.  Você tem de ter liberdade de entrada em todos os setores.  Você tem de abolir as barreiras regulatórias erigidas pelo governo, as quais servem apenas para proteger as empresas reguladas, garantindo-lhes um mercado cativo e monopolista.
Quanto mais o governo controla, maiores serão os preços, e mais insatisfatórios serão os serviços.

Leandro Roque

Por que o socialismo sempre se transforma na doença que pretende curar

Como um radicalismo revolucionário se transforma em um esclerosado e estagnado sistema baseado no poder, no privilégio e no esbulho, gerenciado por burocratas socialistas dotados de interesse próprio?

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O grande sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) apresentou uma compreensão da evolução dos regimes socialistas no século XX. Em seu monumental tratado, publicado postumamente, intitulado Economia e Sociedade (1925), ele define um líder carismático como sendo aquele que se destaca em meio à massa comum por causa de um elemento específico de sua personalidade: ele possui uma rara qualidade intelectual que lhe permite ver aquilo que outros homens comuns não enxergam e entender aquilo que seus semelhantes não conseguiram.
Este indivíduo, em suma, é visto como alguém dotado de poderes e qualidades excepcionais.
Porém, sua autoridade, explica Weber, não advém do fato de terceiros reconhecerem seus poderes intrínsecos. Seu senso de autoridade e objetivo vem de dentro: ele sabe ser o detentor de uma verdade, a qual ele tem a missão de revelar a todos, pois ele sabe que a revelação desta verdade irá libertar seus conterrâneos. E quando a massa percebe toda a certeza, sabedoria e segurança deste homem, torna-se óbvio e inevitável que ela deve seguir sua liderança.
Vladimir Lenin (1870-1924) certamente se encaixava nesta descrição. Embora muitos que o conheceram ressaltaram sua indefinível e até mesmo nada atraente aparência física, a maioria fez questão de enfatizar sua determinação e sua crença inflexível de estar em uma “missão”, em relação à qual ele tinha a mais absoluta confiança e inabalável determinação. Devido a essa sua postura decidida e nunca vacilante, todos os outros se sentiam magnetizados por ele e prontamente aceitavam sua liderança e autoridade.
Em torno de Lenin, o carismático, havia todo um séquito de discípulos e camaradas que igualmente se consideravam adeptos de um chamamento. Eram os ‘escolhidos’. E se viam como servindo à mesma missão: a promoção da revolução socialista. Como disse Weber:
O grupo que se sujeita à autoridade do carismático se baseia em uma forma emocional de relação comunal. […] O grupo é escolhido em termos das qualidades carismáticas de seus membros. O profeta tem seus discípulos. […] Há um “chamado” feito pelo líder, o qual se baseia nas qualificações carismáticas daqueles que ele convoca.
O grupo “escolhido” renuncia (ao menos em princípio) às tentações materiais das circunstâncias mundanas, pois o objetivo de sua “missão” é exatamente derrubar e destruir essas tentações materiais. Com efeito, isso também marcava o estilo de vida conspirador, secreto e algumas vezes espartano dos revolucionários marxistas. Max Weber explicou:
No início da revolução, não há coisas como salários e benefícios. Os discípulos e seguidores tendem a viver basicamente em uma relação comunista com seu líder. […] Puro carisma. […] O grupo desdenha e repudia a exploração econômica da renda assalariada, embora tal postura seja muito mais um ideal do que um fato. […] Por outro lado, a ‘pilhagem’, seja ela obtida pela violência ou por outros meios coercitivos, é a outra forma típica de como o grupo se financia.
Porém, tão logo o carismático e seus seguidores chegam ao poder, ocorre uma transformação em seu comportamento e em seu relacionamento com o resto da sociedade. Agora, passa a ser impossível para esse grupo se manter isolado das questões mundanas da vida diária. Com efeito, se eles não lidarem com estas questões, seu poder sobre a sociedade estará ameaçado de desintegração. Assim, lentamente, aquele fervor que caracterizava a missão ideológica e a camaradagem revolucionária começa a morrer. Disse Max Weber:
Somente os membros de um pequeno grupo de fervorosos e entusiasmados discípulos e seguidores estarão preparados para dedicar suas vidas à sua vocação ideológica da maneira mais pura e idealizada. Já a grande maioria dos discípulos e seguidores irá, no longo prazo, voltar a ‘ganhar a vida’ de uma maneira mais material. Consequentemente, eles irão se preocupar apenas em se apropriar totalmente do poder e dos controles e vantagens econômicas que ele oferece. E a entrada de novos seguidores no grupo passará a ser estritamente regulada. Assim, forma-se uma casta privilegiada. […]
Consequentemente, no corpo político já concretizado, os membros, funcionários e detentores de benefícios passam a ser diferenciados dos ‘pagadores de impostos’. Os primeiros, em vez de serem ‘seguidores’ do líder, se tornam funcionários do estado e são nomeados membros do partido. […] Com o tempo, o grupo carismático tende a se metamorfosear em uma forma típica de autoridade, mais especificamente, a autoridade burocrática.

Nesta análise de Max Weber é possível ver o esboço daquele processo histórico por meio do qual um bando de marxistas revolucionários, convencidos de que viram os rumos da história de uma maneira que outros mortais não viram, passam se enxergar a si próprios como os parteiros daquela história que só eles viram. E o fazem por meio de uma violenta revolução.
Porém, à medida que as brasas da vitória socialista vão arrefecendo — como na Rússia após a Revolução de 1917 e a sangrenta guerra civil de três anos que se seguiu —, os revolucionários têm de se voltar para as questões mundanas de como “construir o socialismo”. E construir o socialismo significa a transformação total da sociedade. E a transformação da sociedade significa controlar, supervisionar e ordenar absolutamente tudo.
O interesse próprio e a nova “sociedade de classes” do socialismo
E foi assim que nasceu, na nova União Soviética, aquilo que viria a ser chamado de Nomenklatura.
Começando em 1919, o Partido Comunista implantou o procedimento de criar listas de cargos e posições burocráticas a serem preenchidos por meio de nomeações oficiais, bem como listas de pessoas que poderiam se qualificar para serem promovidas a estas posições mais elevadas de autoridade.
Assim surgiu a nova classe dominante sob o socialismo.
Ministérios tinham de ser criados e ocupados. Cargos partidários tinham de ser preenchidos. Indústrias estatizadas e fazendas coletivas precisavam de gerentes para supervisionar a produção e garantir que as metas estabelecidas pelo planejamento central seriam cumpridas. Redes de distribuição estatal tinham de ser implantadas. Sindicatos precisavam ser controlados por membros fieis ao Partido. E a mídia precisava de editores e repórteres que publicassem estórias e propagandas sobre os grandes progressos e vitórias obtidos pelo socialismo nessa nova e gloriosa sociedade coletivista, na qual o novo Homem Soviético estava sendo criado.
Porém, contrariamente às promessas de se criar um “novo homem” a partir dos escombros da velha ordem, o exato oposto ocorreu. À medida que a economia socialista ia sendo construída, toda a imutável natureza humana inevitavelmente passou a se manifestar: o interesse próprio, a busca por oportunidades de ganhos, a procura por maneiras de melhorar a própria vida e a de seus familiares e amigos. Tudo isso gerou tentativas generalizadas de se conseguir o controle das mercadorias e recursos escassos “socializados” com o intuito de obter ganhos pessoais dentro dos labirintos e redes da burocracia soviética.
E dado que o estado havia declarado ser o único proprietário de todos os meios de produção, não foi nenhuma surpresa que, à medida que os anos e então as décadas iam se passando, cada vez mais pessoas foram se tornando membros da Nomenklatura e também de suas posições diretamente subordinadas: esse era o único caminho para uma vida mais próspera e agradável. Ao final, o estado socialista não transformou a natureza humana; a natureza humana encontrou maneiras de usar o estado socialista para seus próprios fins.
O sistema de privilégios e corrupção que o socialismo soviético criou foi claramente explicado por Boris Yeltsin (1931-2007), o membro do Partido Comunista da Rússia que, mais do que vários outros, ajudou no fim da União Soviética e na criação de uma Rússia independente em 1991. Em seu livro Against the Grain (1990), Yeltsin explicou:
A ração fornecida pelo Kremlim, uma distribuição especial de produtos inalcançáveis para a população geral, é conseguida pelo alto escalão pela metade do seu preço normal, e consiste de alimentos da mais alta qualidade. Em Moscou, um total de 40.000 pessoas usufruem o privilégio destas rações especiais, em várias categorias de quantidade e qualidade. Há seções inteiras da GUM — a enorme loja de departamentos localizada na Praça Vermelha de fronte ao Kremlim — fechadas ao público e reservadas especialmente para o alto escalão da elite. Já para os funcionários do segundo e do terceiro escalão, há outras lojas exclusivas. Todas elas são rotuladas de “especiais”: armazéns especiais, lavanderias especiais, policlínicas especiais, hospitais especiais, casas especiais, e serviços especiais. Que uso mais cínico da palavra!
A tão prometida “sociedade sem classes”, em que haveria igualdade material e social, foi, com efeito, o mais granulado sistema de poder e privilégio hierárquicos já criado. Suborno, corrupção, conexões e favorecimentos permeavam todo o tecido da sociedade socialista soviética. Dado que o estado detinha, produzia e distribuía absolutamente tudo, as pessoas tinham de ter “amigos”, ou amigos que conheciam as pessoas certas, ou que sabiam a pessoa certa a quem você deveria se apresentar e mostrar o quão agradecido ficaria em troca de um suborno ou de favores recíprocos. Tudo isso era necessário para obter acesso a algo que era impossível de ser obtido por meio dos canais normais da rede de distribuição centralmente planejada para “as massas”.
E por cima de todo este sistema socialista de poder, privilégio e esbulho liderado pelo Partido Comunista estava a polícia secreta soviética, o famoso o KGB (Komitet gosudarstvennoy bezopasnosti, ou Comitê de Segurança do Estado), espionando, vigiando, ameaçando e denunciando toda e qualquer pessoa que ameaçasse ou questionasse a propagando ou o funcionamento do “paraíso dos trabalhadores”.
Contradições e o fim do socialismo soviético
Não é nenhum exagero dizer que tudo aquilo que os marxistas diziam ser a natureza do sistema capitalista — a exploração de muitos pelos poucos privilegiados; uma brutal desigualdade de riqueza e de oportunidade devido simplesmente a um arranjo artificial de controle dos meios de produção; a manipulação da realidade para fazer com que a escravidão parecesse liberdade — era, na verdade, a natureza e a essência do socialismo soviético. Que maneira mais deturpada e pervertida de deformar a realidade através de uma lente ideologicamente distorcida.
Tudo isso finalmente acabou em 1991, quando os privilégios, as pilhagens e a brutal pobreza do “socialismo verdadeiro” tornaram o sistema soviético insustentável. Com efeito, à época, já era praticamente impossível encontrar alguém em qualquer canto da sociedade soviética que ainda acreditasse na “falsa consciência” da propaganda socialista. A União Soviética havia chegado ao beco sem saída da falência ideológica e da ilegitimidade social. A “super-estrutura” do poder soviética havia colapsado. (Veja meu artigo “Há exatos 25 anos presenciei o fim do regime soviético”).
Em 1899, o psicólogo social francês Gustave Le Bom (1841-1931) analisou o então crescente movimento socialista do final do século XIX e escreveu o seguinte lamento em seu livro A Psicologia do Socialismo:
Ao menos uma nação terá de sofrer para servir de instrução ao mundo. Será uma daquelas lições práticas que, sozinhas, poderão iluminar as outras nações que alegremente acreditam nos sonhos de felicidade prometidos pelos sacerdotes da nova fé [socialista].
Não somente a Rússia, mas também vários outros países no Leste Europeu, na Ásia, na África e, até hoje, na América Latina foram e estão sendo obrigados a fornecer ao mundo esta “lição prática” de tirania política e de desastre econômico que só uma sociedade socialista, especialmente em sua versão marxista, pode criar.
Atualmente, a Venezuela fornece este exemplo diariamente, em tempo real. E, contrariamente ao sistema soviético, que pôde durar muito tempo porque tinha vários países-satélites cujos recursos podiam ser explorados, o socialismo venezuelano não tem essa “facilidade”, de modo que o sofrimento e empobrecimento de seus cidadãos é muito mais rápido e bem mais intenso.
Conclusão
O socialismo serve como uma apavorante demonstração prática das desastrosas consequências que surgem quando uma sociedade abandona completamente a filosofia política do liberalismo clássico, o sistema econômico de livre mercado, e um arranjo institucional em que a natureza humana (inatamente egoísta) atua dentro de um arcabouço social baseado em associações voluntárias e transações comerciais pacíficas.
Neste centésimo aniversário da Revolução Russa, que a esperança seja a de que a humanidade já tenha aprendido com este erro trágico, e perceba e aceite que somente as liberdades individual e econômica podem criar a justa, boa e próspera sociedade que a humanidade pode e deve ter.

Richard Ebeling leciona economia na Northwood University de Midland, Michigan

Entre a filosofia e o engodo

Olavo de Carvalho saiu do anonimato e do marginalismo intelectual e se transformou na figura mais influente no meio “alternativo” à Esquerda. Parece que o caminho entre esse anonimato e sua “glória” está permeado por toda a podridão que o próprio Olavo vem condenando há décadas. Aqui, não vamos nos aprofundar nem no conteúdo da carta, nem na briga entre ele e a filha nem nas suposições sobre a vida pessoal de Olavo.

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Vamos mostrar que sua vida intelectual, usada pelos olavetes como blindagem automática e justificadora instantânea de todos os erros e desvios do “guru”, não passa de uma mentira e um conjunto de plágios e adulterações.
Olavo é celebrado como filósofo (para o séquito que o segue, chega a ser o “maior pensador do Brasil”), mas é um anti-filósofo. Ele não criou um grupo de pensadores, de discípulos que aprimoram pensamentos, nem de seres capazes de indagar e questionar (e criar coisas interessantes através desses questionamentos). Ele criou uma massa de seguidores fanáticos que literalmente se submetem ao “mestre”.
Seus seguidores são incapazes de fazer qualquer questionamento em relação a ele (e, quando questionado, a reação do “filósofo” é essencialmente atacar e denegrir). Isso é filosofia? Isso é pensamento? Olavo também pratica exatamente todas as coisas que ele trata como sendo características da Esquerda: produz um culto à sua própria imagem (o “culto à personalidade”), fomenta o duplipensar (uma coisa é ruim se praticada por um “inimigo”, mas torna-se boa quando feita por Olavo ou seus “alunos”), faz uso da difamação e do “assassinato de reputações” (não só contra “esquerdistas”, mas também inclusive atacando qualquer figura conservadora que não se alinhe a ele) e se usa de várias mentiras, desinformação e manipulação de massa.
Olavo é tudo aquilo que diz odiar e combater. É imoral, é malicioso, é mentiroso e desonesto. E sua desonestidade também é intelectual. Grande parte das “ideias de Olavo” não são ideias dele. Ele rouba e comete plágio, tomando ideias que não são suas e vendendo-as como se fossem fruto de sua própria mente. Seus “alunos obviamente não sabem disso (ou fingem não saber). E, assim, ele segue mentindo sobre si mesmo, sobre a política nacional e internacional e fomentando desinformação.
No livro “Aristóteles em Nova Perspectiva”, Olavo copia a tese central do filósofo e professor italiano Giovanni Reale. De José Pedro Galvão de Sousa, Olavo tomou os conceitos e leituras sobre as categorias políticas (principalmente contidas na obra “Dicionário de Política”). Aliás, Olavo se gaba de ter sido o primeiro a divulgar a figura de Eric Voegelin no Brasil, o que também é mentira: foi o próprio José Pedro Galvão quem, em 1979, já havia inserido os pensamentos e a figura de Eric no cenário intelectual brasileiro, citando o pensador em sua própria obra “Dicionário de Política”.
José Pedro Galvão era um conservador católico e intelectual bastante respeitado. E não foi “perseguido” pela academia: ao contrário, teve reconhecimento no meio acadêmico brasileiro. Olavo, por outro lado, não produziu nada relevante para o Brasil, e por isso mesmo ele é ignorado pela academia – a justificativa dele é falar em “perseguição” (e há vários pensadores brasileiros que agem fora da academia), quando na verdade sua própria obra é bastante pobre (e, aliás, nem é “dele” propriamente).
Olavo não faz plágio apenas com conservadores. Foi dos marxistas da primeira metade do século XX que ele roubou o termo “paralaxe cognitiva”, que vende como seu. Slavoj Zižek, filósofo marxista contemporâneo, aborda a paralaxe cognitiva num estudo recente, citando os pensadores marxistas responsáveis pela criação do termo.
A análise de semelhanças entre nazismo e comunismo tem como um de seus principais expoentes o filósofo francês Alain Soral, bastante atacado e demonizado pelo próprio Olavo, que o acusa de ser um “satanista”. Não só de Soral, aliás, mas de vários autores. Uma de outras teorias atribuídas a Olavo, a das Doze Camadas da Consciência, foi criada por Ken Wilbert, psicólogo estadunidense que também criou a Psicologia Transpessoal e da Teoria Integral.
As “brilhantes” análises geopolíticas de Olavo não são nada mais do que traduções de pensadores neocons dos EUA, como Michael Ledeen, Nathan Glazer, Andrew Roberts, Douglas Murray, Victor Davis Hanson, Donald Kagan, Jeane Kirkpatrick, Liz Cheney e tantos outros mais. É desse grupo de pensadores que Olavo toma o anticomunismo ferrenho e a demonização completa da Rússia e das nações do Oriente Médio, além do falso dualismo entre um “Ocidente cristão” e o Islã. A própria visão geopolítica (uma área que Olavo desdenha, mas que admira quando usada pelos EUA) de Olavo sobre o Brasil é tomada de Henry Kissinger, na qual o papel brasileiro no panorama global é o de mero agroexportador.
Outra teoria que Olavo propaga como sua é a da Análise da Mentalidade Revolucionária. Olavo se coloca como o maior analista da psicologia e da mentalidade revolucionária, mas vários outros autores já haviam feito análises sobre esse tema muito antes dele. Um deles é Jonathan Israel. Aliás, o próprio conservador britânico Edmund Burke já havia feito esse tipo de análise.
Não há problema algum em se apoiar em outros pensadores e beber outras fontes. Qualquer grande pensador faz isso. Até mesmo nós fazemos isso. O problema é vender como suas teorias que foram criadas por outros pensadores, distorcendo suas ideias e negando os devidos créditos. Ao que parece, a “produção intelectual” de Olavo é um engano. E ele continuará sendo idolatrado, porque, para seus seguidores, ele não pode errar – e, se errar, tudo é justificável. Olavo age dentro dos escopos que desenha para a Esquerda. A tão odiada “mentalidade revolucionária”, demonizada por ele, é perceptível não só em sua pessoa, mas em todo o grupo que o segue: tudo contra nós é errado, tudo conosco é correto.

http://www.acaoavante.blogspot.com

A revolução é o ópio dos intelectuais

Um Estado repleto de boas intenções pode legitimar condutas que possam vir a ser prejudiciais para a sociedade. A concessão para alguém do poder de administrar a sociedade, fazendo dela instrumento para tudo controlar, leva ao crescimento desse poder, visto que o titular do mesmo poderá utiliza-lo para legitimar seus atos coercitivos, os quais julgam serem corretos.
Em uma sociedade sem coerção estatal, os indivíduos acabariam por recorrer exatamente para a sociedade organizada de forma que os fariam evoluir mais rápido e viver melhor, uma vez que é natural do ser humano buscar uma melhora de vida. Os costumes surgiram naturalmente dentro dessa sociedade, de forma que se tornariam parte daquela civilização.
Surgiriam valores morais que seriam intrínsecos daquela sociedade e, assim, essa moral estaria enraizada na civilização de tal forma que aqueles que não a seguissem seriam considerados pária social, de forma que seria desvantajoso para o indivíduo ferir a moral. Os indivíduos dessa sociedade estariam mais do que dispostos a seguir com os valores morais, pois estariam em risco de perder oportunidades de trocas voluntárias vantajosas e, por interesse próprio, acabariam por aderir a moral da sociedade em que vivem.
As medidas estatais são postas como verdades absolutas, sem haver questionamento acerca dos efeitos econômicos e sociais que a mesma acarreta, podendo ser estes mais prejudiciais do que bons. A medida ou lei que traz consequências injustas se torna instrumento de injustiça, legitimando condutas de espoliação que agridem direitos básicos dos indivíduos (propriedade, liberdade e segurança) e termina por não trazer justiça almejada, além de evitar a prosperidade da sociedade. Quando a liberdade é considerada ilegal, somente os criminosos estarão livres!
Em verdade, é possível observar que há uma intenção de cobrir as medidas de esquerda com um manto da chamada justiça social, visando tornar qualquer argumento contra estas medidas inválido ou injusto. Uma tentativa torpe de tomar para a ideologia socialista o monopólio da virtude.
As medidas defendidas pela esquerda são, em sua maioria, vistas como justas do aspecto social, pois a intenção é usar da coerção estatal para exercer a fraternidade forçada. Um exemplo cristalino é a questão da saúde pública. O Sistema Único de Saúde tem como escopo garantir para todos o acesso à saúde para alcançar a justiça social. Aos olhos inocentes, tais medidas soam brilhantes. Elas surgem como uma espécie de solução para a falta de acesso a saúde dos pobres ao passo que obriga a todos a custearem a mesma. Todavia, o que se vê é que estes pobres permanecem sem ter acesso a este serviço, ainda que ele seja fornecido de forma supostamente gratuita. Um dos motivos é a escassez.
Se há um serviço que é gratuito (sic), que, neste caso, é uma inverdade, haja vista o pagamento de tributos para a manutenção do mesmo, a demanda se torna infinita. Porém, a mão-de-obra dos profissionais da saúde ou administrativos que compõem o quadro dos hospitais, postos e demais locais de atendimento médico, bem como o maquinário e todos os recursos utilizados para o fornecimento do serviço, não são infinitos.
Logo, conclui-se que o pobre, que supostamente estaria recebendo o serviço de saúde de forma gratuita, em verdade, está a pagar pelo serviço e também por toda a estrutura que compõe os locais de atendimento médico para que o Estado intermedeie a relação entre o consumidor do serviço saúde e aquele que fornece o atendimento médico.
Dito isto, é possível observar que o pobre termina por custear algo a mais, qual seja toda a estrutura que compõe o Estado, para obter (ou não obter, melhor dizendo) um serviço que provavelmente é de uma qualidade muitíssimo inferior ao que poderia obter se não tivesse de custear o intermediador.
Se um município opta por fazer uma obra de mobilidade urbana que valerá alguns milhões de reais, cada centavo deste valor pertenceu aos indivíduos que compõem a sociedade antes de ser retirado de forma compulsória. O que o município faz é tão somente contratar uma empresa privada por meio do processo de licitação. Ou seja, o Estado é apenas um intermediário, não é ele que constrói estradas.
É preciso que os intelectuais, no conforto de suas bibliotecas, parem de tentar solucionar problemas alheios de pessoas humildes como se estas fossem incapazes de se erguer. Em verdade, quando na informalidade ou por algum período de grandes privações, pobres foram capazes de melhorar suas condições. A história tem nos mostrado o contrário do que alegado por estes intelectuais, as condições de trabalho melhoraram, assim como a qualidade de vida das pessoas, em razão de o mercado está eternamente buscando atender demandas sociais para, sim, obter lucros.
Estudar o direito, economia e a ciência social deveria ser um ótimo motivo para entender que jamais o Estado desejou beneficiar a sociedade que governa, mas sim atender aos interesses próprios daqueles que estão nele inseridos através de coerção pesada sobre as massas, com o auxílio de (desonestos) “intelectuais”, que discutem em suas glamourosas mesas os problemas sociais.
Foi percebido pelos “progressistas” que a educação era essencial a manutenção da ideologia estatista, fazendo com que a educação se reduzisse à mera reprodução de papéis sociais que interessavam ao Estado. Este entendimento foi sendo comprovado ao longo do tempo. As pesquisas não são mais inovadoras e a academia, defasada, apenas repete o mesmo entendimento e o mesmo discurso. É preciso que os pesquisadores dessas áreas saibam que inovar é necessário, que nossa sociedade pode estar estagnada numa problemática eterna que termina por não apresentar soluções reais, viáveis e com resultados aos problemas sociais tão discutidos e esteja apenas discursando em prol da espoliação legal.
O fato é que somente aqueles que usufruem de condições financeiras melhores falam nesse ideal. Normalmente, o povo quer adquirir bens, usufruir do conforto que o sistema capitalista vem desenvolvendo ao longo dos anos. O povo não quer o socialismo discutido pelos “intelectuais”, que é impraticável sem coerção pesada. A sociedade não quer, sequer, o estado que aí está, o qual tolera, a duras penas, em razão da coerção na qual acha que se encontra.
Sobre a autora: Advogada, Pós-graduanda em Direito Processual Civil pela Universidade de Fortaleza

20 de Setembro é feriado no Rio Grande do Sul

Em 20 de Setembro de 1835, os farroupilhas, liderados por Bento Gonçalves, venciam o confronto da Ponte da Azenha e entravam na província de Porto Alegre. Iniciou-se a Guerra dos Farrapos, o mais duradouro conflito armado da história do Brasil, que resultou na declaração de independência do Estado do Rio Grande do Sul, dando origem à República do Piratini, que durou cerca de sete anos.
A Guerra dos Farrapos, também chamada de Revolução Farroupilha, é o mais longo conflito armado ocorrido em território brasileiro (teve início em 1835 e terminou em 1845). É considerada uma das mais importantes passagens da história do Rio Grande do Sul, um marco da formação social e política do Estado. A importância do dia 20 de Setembro é tão grande que em 1978 foi decretado feriado em todo o Estado pela lei estadual 4.453/78.
Mas para entender o porquê da importância da data, é necessário conhecer melhor o contexto histórico, as razões e no que resultou o conflito. Vamos lá.
Semana de tradição e festa
Não é apenas o dia 20 de Setembro que é dia de festa no Rio Grande do Sul. Os Centros de Tradição Gaúcha, CTGs, que existem em praticamente todas cidades gaúchas e, inclusive, em outros Estados, preparam uma série de comemorações para a semana Farroupilha. São gincanas, churrascos (claro), missas no melhor estilo crioulo (nome dado aos moradores dos pampas no passado), desfiles temáticos, palestras e discussões. É a hora do gaúcho lembrar porque é gaúcho, tchê.
Na década de 1830, os estancieiros do Estado do Rio Grande do Sul viviam uma desconfortável situação econômica. Seu principal produto, o charque (carne-seca), cuja maioria da produção era destinada ao abastecimento do mercado interno brasileiro (particularmente à classe média brasileira que se formava com a exploração de metais preciosos nas Minas Gerais), sofria forte concorrência externa. A carne-seca argentina e uruguaia não era tributada na importação e, portanto, era comercializada a preços competitivos em território nacional, criando dificuldades aos produtores gaúchos. Apesar de inúmeras reivindicações, nenhuma atitude tomou o governo do império.
Por outro lado, crescia no sul do País um sentimento de descontentamento com o poder centralizador do império. É bom lembrar que o Império brasileiro havia sido proclamado em 1822, uma década antes. No Rio Grande do Sul, este movimento era liderado pelo Partido Exaltado – seus integrantes eram chamados de farroupilhas, uma forma pejorativa de dizer que eles se vestiam de farrapos, apesar dos líderes serem estancieiros, o que chamaríamos hoje de fazendeiros. Eles defendiam a instauração do sistema federalista, bem como a substituição da monarquia pelo regime republicano.
Foi então que, em 20 de setembro de 1835, os farroupilhas se rebelaram e, armados, tomaram o poder de Porto Alegre: foi o estopim da guerra. O governo bem que tentou reverter a situação, mas era tarde demais. Em 1836, os farroupilhas proclamaram a República do Piratini. Bento Gonçalvez, líder dos revoltasos, foi conclamado como primeiro presidente.
Processo muito semelhante ocorreria três anos mais tarde, em 1839, no Estado de Santa Catarina. Liderados por Giuseppe Garibaldi e Davi Canabarro, os rebeldes proclamaram a República Juliana. Garibaldi, um aventureiro italiano que dizia lutar contra as injustiças, veio ao Brasil especialmente para ajudar os farrapos. Em Santa Catarina, acabou casando com Anita Garibaldi, uma catarinense que aderiu ao movimento de insatisfação contra o império. Com a proclamação da República Juliana, o movimento estava no ápice. Em 1838 e 1839, o governo das “novas repúblicas” tomou as seguintes medidas:
Libertação dos escravos, que haviam participado da revolução
Redução dos impostos sobre exportação
Restabelecimento do imposto sobre importação de gado
Criação de uma fábrica de arreios e uma outra de curtição de couros
Promoção do recenseamento da população
Instituição da Assembléia Constituinte e do sufrágio universal
Dom Pedro 2º assumiria o trono do Império, em 1840, sob forte instabilidade institucional. Logo, procurou restabelecer a paz no sul do País, propondo anistia aos rebeldes farroupilhas. Não obteve sucesso.
Foi então que, em 1842, as forças militares do governo federal, comandadas pelo então barão de Caxias (Luís Alves de Lima e Silva), começaram a conter a revolta. É claro, a ferro e fogo.
A revolução Farroupilha chegaria ao fim somente no ano de 1845, com a celebração de um acordo entre o Império e os rebeldes, representados pelo barão de Caxias e Davi Canabarro (outro líder farrapo), respectivamente. De um lado, os revoltosos eram anistiados e os oficiais Farroupilhas eram incorporados ao exército nacional. De outro, os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina voltavam a fazer parte do império brasileiro. E os charques argentino e uruguaio passaram a ser taxados em 25%.

Celso Monteiro