NACIONAL SOCIALISMO – NAZISMO…DIREITA OU ESQUERDA?

Nos últimos tempos, temos visto uma tentativa de reescrever a história do nazismo, fazendo com que o mesmo seja enquadrado como esquerda ou ‘extrema esquerda’, ainda que para tanto seja preciso suprimir boa parte da realidade sobre o movimento ou reduzir os argumentos a tão somente um único aspecto, embora a ideologia nazista tenha sido extremamente complexa.
Deste modo, e contando com o desconhecimento do leitor acerca dos fatos históricos, muitos ‘autores’ simplesmente fazem afirmações que soariam absurdas nas décadas de 1930 e 1940, para justificar suas posições ideológicas e tentar vender como ‘verdade’, o que eles acreditam (ou querem que seja) a realidade.

Para desfazer tais enganos, listaremos, de forma breve e simples, alguns fatos sobre o nazismo que efetivamente demonstram que sua verdadeira posição no espectro político/ideológico era, e provavelmente sempre foi, a extrema-direita.

1. Um dos objetivos do nazismo era acabar com a esquerda alemã.

De acordo com o historiador inglês Ian Kershaw em seu livro “De volta ao inferno – Europa, 1914 – 1949” [1], o Nazismo foi um dos movimentos nascentes do antibolchevismo e que posteriormente resultou em um movimento de massas da direita. Seu surgimento, bem como o de outros movimentos agressivos de extrema-direita, tal como o fascismo, é associado a uma ideia de eminente perigo por conta do “bolchevismo”, que havia se estabelecido na Rússia.
Em seu livro, “Mein Kampf“, Hitler relata diversos embates com operários de esquerda, aos quais se refere com o termo “vermelhos”. Um dos relatos mais notáveis sobre tais embates é o enfrentamento físico promovido pelas “Tropas de Assalto” (SA) nazistas contra trabalhadores de esquerda na cidade alemã de Coburg. Segundo este, a cidade era assolada pelo “terror vermelho” e após suas ações, seu nacional-socialismo provavelmente seria a instituição a ser chamada para “pôr fim à loucura marxista”[2].
Já em 1933, após ter sido escolhido chanceler, em uma reunião realizada em 20 de fevereiro com um grupo de poderosos industriais da Alemanha, Hitler expôs seus planos e propostas aos mesmos. De acordo com o historiador econômico Adam Tooze, que a detalhou em seu livro “O Preço da Destruição“, a reunião não foi uma exposição de políticas econômicas por parte do chanceler, mas sim o anúncio de seus planos para “esmagar o outro lado” (a esquerda alemã) e acabar com a democracia parlamentar. Para tanto, solicitava apoio financeiro para as eleições legislativas de 5 de março, com a finalidade de cobrir suas ações por “meios constitucionais”. O pedido foi prontamente atendido pelos industriais, que receberam em troca o desmantelamento dos sindicatos e o congelamento dos salários dos trabalhadores [3]. (A relação simbiótica entre os industriais alemães e o nazismo será melhor detalhada em texto futuro).
2. Os nazistas repudiavam Marx e suas ideias.

Karl Marx era filho de uma família de origem judaica, sendo que a errônea e absurda afirmação de que “Hitler seria seguidor do marxismo“, muitas vezes propagada na internet, carece de base factual.

Em várias passagens de seu livro “Mein Kampf“, Hitler fala de seu desprezo pela “doutrina judaica do marxismo” e o classifica como “um dos maiores perigos para a Alemanha”, afirmando que o mesmo tinha “profundas ligações com o judaísmo”, e que um dos “problemas” que a Alemanha deveria enfrentar era o “aniquilamento do Marxismo”.
Também não faltam discursos onde este profundo desprezo por quaisquer das ideias de Marx e da esquerda é expresso com palavras agressivas, conclamando as pessoas para combatê-las, conforme podemos ver no vídeo acima.

3. Para os nazistas, as desigualdades eram naturais.
Segundo o cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004), em seu livro “Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política“, a esquerda busca promover a igualdade entre os seres humanos e a mudança da ordem social. Por outro lado, a direita prega que a desigualdade seria algo intrínseco aos seres humanos, natural, e dá ao apego às tradições uma valoração positiva.
Sobre isso, Hitler escreve em “Mein Kampf“:
“A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.”
Como é possível ver nesta passagem e em suas práticas, para os nazistas, não só era natural que existisse uma hierarquia, como também necessário. Em sua visão de mundo, existia uma “raça superior” (os arianos), que deveriam dominar e submeter os “inferiores”. Também negavam a luta de classes em nome de uma “conciliação em torno de um ideal nacional” e seu objetivo último não era a igualdade.

4. O nome ‘Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães’ não fazia deste um partido de esquerda.
Diferente do que muitos afirmam, o nome do partido  conter “socialista” não é um indicativo deste ser de esquerda. É importante notar que em seu nome em alemão, “Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei”, o termo “Nationalsozialistische”, ou nacional socialismo, era uma contraposição ao socialismo internacional de cunho marxista.
Uma entrevista concedida a George Sylvester Viereck e publicada no jornal Liberty de 9 de julho de 1932, Hitler fala o seguinte sobre o seu “socialismo” *:
“Viereck: Por que o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?
O socialismo – replicou ele agressivo, deixando de lado a xícara de chá – é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só”[5].
Portanto, apesar do nome, não se pode dizer que os nazistas de fato tinham algo de socialistas, já que não apoiavam elementos básicos do socialismo, tal como o fim da propriedade privada e sua coletivização, como ocorreu na URSS.
Ainda neste ponto, é importante lembrarmos que nem sempre nomes são indicativos fiáveis da essência de algo, pois o cavalo-marinho não é um equino do mar, peixe-boi não é um bovino e poucas pessoas acreditam que a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) é realmente democrática. (Há pontos a serem esclarecidos que o serão em artigo futuro).

5. Os nazistas armaram a população alemã.

É praticamente senso comum a afirmação de que “o nazismo, tal qual outros regimes de esquerda, desarmou os alemães” e que “se este fosse de direita, a teria armado”. No entanto, tal afirmativa carece de base factual.

Se a afirmação de que os regimes de direita armam seus povos é verdadeira (não afirmando que o fazem, embora seus defensores digam que sim), o nazismo poderia ser tranquilamente classificado como um regime de direita, pois este incentivou largamente o armamento de sua população.
A República de Weimar possuía desde 1928 leis bastante restritivas para o porte de armas por imposição dos aliados, pois o artigo 177 do Tratado de Versalhes exigia o desarmamento da população alemã. Após assumir o poder, os nazistas utilizaram largamente estas leis para desarmar os judeus e outros “inimigos do Estado”.
No entanto, em 1938, estes emitiram o Nationalsozialisten das Reichswaffengesetz  para ser a nova legislação de armas do país.
Ao mesmo tempo em que esta legislação proibia completamente o porte de armas para grupos como judeus, ciganos e homossexuais, ela servia para rearmar a população alemã ‘ariana’. Dentre as mudanças implementadas estavam a autorização para a livre posse de armas de cano longo (rifles e espingardas) e munições, a diminuição da idade legal para a posse de 20 para 18 anos, a validade das licenças, aplicáveis a armas de cano curto, foi estendida de um para três anos e a exclusão de mais pessoas da necessidade de possuir licenças. Membros do partido, superiores da juventude hitlerista, proprietários de autorização de caça, membros das SS e funcionários do governo estavam livres de restrições para posse de armas. Pela legislação anterior, apenas funcionários do Estado estavam isentos [6][7][8].

6. Na Alemanha, o nazismo é indiscutivelmente de direita.
A afirmação de que o “nazismo é de esquerda” tornou-se mais difundida muito recentemente e partiu de um grupo bastante restrito, o qual religiosamente acredita que capitalismo é tão somente livre mercado e toda economia com forte presença do Estado caracteriza “socialismo” ou similares. Tal falácia será tratada no último tópico.
No entanto, apesar de tal afirmação, abundam documentos e historiadores que classificam o nazismo como de direita ou, mais precisamente, de extrema direita. Esta mesma afirmação também consta em um documento do Deutscher Bundestag (Parlamento Alemão) sobre os partidos políticos da República de Weimar [9].
Além disso, no país existe um termo coletivo utilizando para designar os grupos neonazistas, fascistas e nacionalistas extremos: Rechtsextremismus, cuja tradução é “extremismo de direita”. Dentre as características presentes nestes grupos está a negação da igualdade entre as pessoas, a xenofobia, o racismo e o revisionismo histórico, buscando reescrevê-la de acordo com o que acreditam [10].

7. A cor vermelha foi escolhida para provocar a esquerda.
Embora este pareça ser um ponto absurdo, há quem faça comparativos entre o nazismo e o socialismo tão somente por ambos adotarem a cor vermelha. Sobre isso, Hitler escreve em “Mein Kampf“:
“A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a Esquerda, de revoltá-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente. Era delicioso seguir naqueles anos a falta de iniciativa e de recursos dos nossos adversários, pela sua tática eternamente vacilante” [11].
Todavia, é importante ter em mente que o preto, o branco e o vermelho, adotadas pelos nazistas para suas bandeiras, eram as cores da bandeira do Império Alemão (imagem acima), o qual deixou de existir após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e a abdicação do kaiser Guilherme II em 1918.

8. A economia da Alemanha nazista não era semelhante a da União Soviética.

Os discursos acima foram feitos em 1934 pelo economista alemão Hjalmar Schacht, então Presidente do Reichsbank e Ministro das Finanças do Reich, sobre as dificuldades que a Alemanha enfrentava para obter divisas externas (moeda estrangeira) destinadas a pagar as compensações de guerra exigidas pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial e os empréstimos que havia contraído no exterior. Tal ponto é importante porque explica parcialmente o controle implementado pelo Reichsbank sobre a posse de moeda estrangeira e o controle do comércio exterior pelo Estado.

Conforme explica o historiador econômico Adam Tooze, em seu livro “O Preço da Destruição“, que faz uma análise detalhada da economia da Alemanha nazista, os controles implementados pelo Estado tinham finalidades bastante definidas, tal como no caso do controle da posse de moedas estrangeiras [12][13].
No entanto, nenhum destes controles transformaram a Alemanha nazista em uma “economia soviética”. Diferente do que acontecia na URSS, onde a propriedade das fábricas era coletiva (ou do Estado, se preferir), no regime nazista ainda existia a propriedade privada. As expropriações eram pontuais, atingindo propriedades de judeus, que eram posteriormente repassadas a proprietários “arianos’. Empresas como a IG Farben, a Krupp e a Thyssen, que colaboraram ativamente com o regime, não eram estatais, embora fizessem muitas parcerias com o Estado **.
A intervenção do Estado alemão na economia durante o regime nazista pode ser melhor explicada pela fragilidade da mesma no momento específico e pelos objetivos do regime: Gerar empregos e posteriormente uma guerra.
Logo após assumir o poder em 1933, Hitler pediu a Hjalmar Schacht que criasse um plano para financiar o rearmamento de forma oculta, o que este executou com maestria, embora tenha deixado o cargo de Ministro das Finanças do Reich em 1937 e por fim o de Presidente do Reichsbank em 1939 por discordar especialmente da magnitude que os gastos militares estavam assumindo. Praticamente todas as ações econômicas tomadas pelos nazistas estavam de alguma forma orientadas para a guerra futura que estes gestavam.
Foram estabelecidas parcerias público-privadas para fábricas de borracha sintética, de combustível sintético ou para a expansão da produção de outras matérias-primas essenciais para a indústria de armamentos. Hitler sabia não ser uma boa ideia iniciar uma guerra com uma economia dependente de importações.
*A frase “Nós somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista para a exploração dos economicamente fracos, com seus salários injustos, com sua indecorosa avaliação do ser humano de acordo com a riqueza e a propriedade em vez de sua responsabilidade e desempenho, e nós estamos todos determinados a destruir esse sistema sob todas as condições“, erroneamente atribuída à Hitler, foi dita por Gregor Strasser em 15 de Junho de 1926. Strasser foi assassinado a mando de Hitler em 1934 na “Noite das facas longas”[14].
**Ainda assim, a seita do livre mercado costuma argumentar que o fato dos nazistas desprezarem este e intervirem na economia seria suficiente para classificá-los como “de esquerda”, pois a esquerda obviamente é intervencionista e a direita é “livre mercado”. Se tal argumento fosse verdadeiro (ignorando todas as outras distinções), teríamos uma infinidade de regimes “de esquerda” e praticamente uma nulidade de regimes “de direita”. Até mesmo o Regime Militar brasileiro seria classificado como “esquerdista”.
Todavia, a religiosidade dos discípulos do “deus mercado” é tanta que o idolatrado Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation posiciona o país extremamente interventor de Singapura, cujo o Estado possui mais ativos que o próprio PIB do país e cujo governo possuí tendências autoritárias como o segundo colocado em seu ranking [15].

REFERÊNCIAS:
[1] Ian Kershaw – De volta ao inferno – Europa, 1914 – 1949, pág. 16.
[2] Adolf Hitler – Mein Kampf, pág. 290.
[3] Adam Tooze – O Preço da Destruição, pág. 132.
[4] Adolf Hitler – Mein Kampf, pág. 40.
[5] https://www.theguardian.com/theguardian/2007/sep/17/greatinterviews1
Em português: http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/AdolfHitler.htm
[6] https://de.wikisource.org/wiki/Waffengesetz_(1938)
[7] http://www.gegenfrage.com/gun-control-aktivisten-vergleichen-obama-mit-hitler/
[8] https://web.archive.org/web/20110719234123/http://www.polizei-nrw.de/moenchengladbach/Waffenrecht/article/Historie_des_Waffenrechts.html
[9] https://www.bundestag.de/blob/189776/01b7ea57531a60126da86e2d5c5dbb78/parties_weimar_republic-data.pdf
[10] http://www.bpb.de/politik/extremismus/rechtsextremismus/41312/was-ist-rechtsextrem?p=all
[11] Adolf Hitler – Mein Kampf, pág. 255.
[12] Adam Tooze – O Preço da Destruição, informações contidas ao longo do livro.
[13] http://www.scielo.br/pdf/ecos/v16n3/02.pdf
[14] http://www.snopes.com/hitler-nazis-capitalist-system/
[15] https://voyager1.net/economia/10-fatos-sobre-singapura-que-invalidam-os-indices-de-liberdade-economica/

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