O califado no século XXI quer ir de Lisboa ao Paquistão

A mancha estende-se dos Pirinéus aos confins dos Himalaias. Vai do Cabo Finisterra ao sul do Quénia. Dos arredores de Viena ao Punjab. O mapa difundido nas redes sociais Facebook e Twitter por aparentes apoiantes do Estado Islâmico mostra toda a extensão do califado tal como o imaginam daqui por alguns anos. Por enquanto, os jihadistas do ISIS só dominam o norte do Iraque e uma parte do leste da Síria, mas os projectos dos fundamentalistas são grandiosos – mesmo que não tenham reais possibilidades de concretização.
Muitos destes “soldados de deus” são jovens que saíram diretamente das madrassas para o deserto, mas sem se esquecerem de levar consigo os smartphones e sem desligarem as suas contas nas redes sociais. Alguns foram educados nos subúrbios de cidades europeias mas a sua inspiração é a mesma de Osama Bin Laden: recuperar para o Islão todas as terras que em tempos foram dominadas por muçulmanos e, por isso, integravam o califado. Desde o Al-Andalus – a Ibéria muçulmana, a Bin Laden se referia com frequência – até ao vale do Indo.

Originalmente a palavra “califado” significa em árabe a forma de escolha de um líder (o Califa) para os muçulmanos. Esse Califa é visto como o sucessor do profeta Maomé e líder máximo dos crentes.
O primeiro califado data do tempo e das conquistas de Maomé e atingiu a sua máxima expansão com os Omíadas, que governavam a partir de Damasco. A sede do califado passaria depois para Bagdad com os Abássidas, a seguir para o Cairo com os Fatimidas e finalmente para Istambul com os Otomanos.

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A expansão do califado desde Maomé (mais escuro) até aos Omíadas (mais claro).
Nunca voltaria, contudo, a ter a extensão máxima atingida com os Omíadas, mesmo considerando a sua extensão à Grécia, aos Balcãs e à Crimeia durante o tempo otomano, quando os exércitos do sultão chegaram por duas vezes às portas de Viena. Acabaria por ser abolido pelo líder nacionalista e secular Mustafa Kamal Ataturk em 1924, altura em que a Turquia moderna foi fundada.
O mapa divulgado pelos radicais representa um califado que nunca existiu como um todo – mas retrata todos os territórios que alguma vez estiveram sob domínio muçulmano. O seu projecto é reunificar todos esses territórios, incluindo as terras de Portugal e Espanha onde, durante alguns séculos, existiu o califado de Al-Andalus.
Algumas das fronteiras internas desenhadas neste mapa, sobretudo no Grande Médio Oriente, seguem vagamente as divisões administrativas existentes no tempo do Império Otomano, divisões essas que não foram respeitadas pelo acordo de Sykes-Picot que traçou as novas fronteiras da regiões, dividindo-a, a seguir à I Guerra Mundial, em zonas de influência francesa e britânica. As fronteiras actuais derivam desses acordos, que são contestados pelos jihadistas, pois, na sua opinião, traduzem “a vontade de dividir os muçulmanos e limitar a possibilidade de um novo califado”. Não por acaso o “califado” que o líder do ISIS, o temível Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou depois da ofensiva relâmpago dos seus exércitos não respeita as fronteiras nem do Iraque, nem da Síria.
Na altura da proclamação do califado moderno pelo ISIS, alguns especialistas referiram que se tratava do evento mais importante e com maior impacto do jihadismo internacional desde o 11 de Setembro. A difusão deste mapa, pintado com as cores negras do ISIS, mostra como os planos dos radicais – mesmo que não formalmente do Estado Islâmico – são ambiciosos.

Jose Manuel Fernandes – Observador Portugal

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