“Desastres naturais são bons para a economia!” – gritam os keynesianos e intervencionistas

Após a passagem do furacão Harvey no Texas, que causou inundações catastróficas e destruições maciças, inclusive de plataformas de petróleo no Golfo do México, há estimativas de que os estragos possam chegar a US$ 190 bilhões, o que equivale a 1% do PIB dos EUA. Isso faz do Harvey o furacão mais danoso que já atingiu os EUA, mais do que o Katrina (US$ 100 bilhões) e o Sandy (US$ 60 bilhões) juntos.
Já o furacão Irma, embora tenha sido menos intenso que o inicialmente previsto, gerou estragos estimados em US$ 50 bilhões.
No México, o mais forte terremoto em quase um século pode ter causado perdas de US$ 1 bilhão (a região era muito pobre).
Os palhaços entram em cena
E aí ocorreu o inevitável. Como sempre ocorre após um desastre natural — ou, no caso, vários desastres naturais em série —, economistas e comentaristas políticos já começaram a dizer que tais eventos trarão um “grande impulso à economia”.
A rede CNBC, por exemplo, disse que o Harvey irá “gerar um aumento dos salários”, e que toda reconstrução de Houston será “ótima para a economia”. Vale lembrar que os economistas desta mesma rede afirmaram que o Tsunami que devastou o Japão em março de 2011 também seria excelente para a economia.
Já William Dudley, presidente do Federal Reserve de Nova York, foi ainda mais direto: ele disse que “furacões estimulam a atividade econômica no longo prazo”.
Ainda sobre isso, não nos esqueçamos também de Paul Krugman, que declarou, dias após os ataques de 11 de setembro, que ao menos havia um consolo naquilo tudo: eles estimulariam a atividade econômica. Já outro economista keynesiano, Peter Morici, afirmou que o furacão Sandy, que castigou o nordeste dos EUA em 2012, traria um “futuro brilhante” para a economia.
A lógica dessa gente é sempre a mesma: desastres e destruições estimulam mais gastos do governo para a reconstrução e mais pagamentos das seguradoras para as vítimas. Os gastos do governo para a reconstrução geram obras e aumentam a demanda por maquinários, matérias-primas, cimento, argamassa, vergalhões etc., e com isso vários empregos são criados. O mesmo processo ocorre com o dinheiro pago pelas seguradoras às vitimas, que irão utilizar esse dinheiro para reconstruir seus imóveis e comprar novos carros. Tudo isso faz a economia “bombar”.
Quebrando a vidraça
Esse raciocínio é tão antigo, e tão torpe, que já foi refutado ainda no século XIX pelo grande Frédéric Bastiat. Em seu ensaio “Aquilo que se vê e aquilo que não se vê”, ele alerta para as consequências negativas (as quais poucos conseguem ver) de se direcionar recursos escassos para substituir bens que já existiam e que foram destruídos. Destruir riqueza apenas para reconstruí-la não é uma atividade que torna a todos mais ricos.
Resumidamente, eis o que explicou Bastiat: se um moleque quebra uma vidraça de uma padaria, obrigando seu proprietário a incorrer em gastos para trocar a vidraça, um economista incapaz de enxergar o longo prazo diria que tal ato de vandalismo foi bom para a economia, pois, ao ser obrigado a gastar dinheiro com uma vidraça nova, o padeiro não apenas irá estimular o mercado de vidros, como também irá estimular toda a economia.
O vidraceiro terá mais dinheiro para gastar com seus fornecedores, e os fornecedores terão agora mais dinheiro para gastar com outros setores da economia. Toda a economia sairá ganhando. A vidraça quebrada proporcionou dinheiro e emprego em várias áreas.
Porém, há as consequências que não são vistas. O padeiro ficará com menos dinheiro, fazendo com que ele deixe de comprar um terno. Se antes ele teria a vidraça e o terno (ou o equivalente em dinheiro), agora ele terá apenas a vidraça. O alfaiate deixou de ganhar dinheiro. Os fornecedores do alfaiate deixaram de ganhar dinheiro.
Igualmente, os fornecedores de insumos para a padaria — plantadores de trigo, criadores de fermento, cultivadores de leite etc. — também deixarão de ganhar dinheiro, pois a padaria teve de economizar para trocar a vidraça.
O que o vidraceiro ganhou, o alfaiate, todo o setor de tecidos e todo o setor de fornecedores perderam. Estes não poderão gastar este dinheiro com outros setores da economia. Sendo assim, não houve nenhuma criação líquida de emprego.
Mais: o ganho monetário do vidraceiro originou-se de uma mera recomposição de capital destruído. Ou seja, foi um dinheiro gasto apenas para consertar algo que foi danificado. Foi um dinheiro que, no final, serviu apenas para trazer algo de volta ao ponto inicial (a vidraça reparada).

Não foi um dinheiro que o dono da padaria gastou voluntariamente em investimentos, mas sim um dinheiro que ele foi obrigado a gastar apenas para voltar ao ponto inicial. Não houve nenhum aumento no estoque de capital da economia, mas sim apenas o conserto de algo que foi destruído.
Em suma, se a vidraça não houvesse sido quebrada, o proprietário da padaria poderia ter gasto seu dinheiro para melhorar sua situação em vez de meramente restaurá-la. Isto é o que não é visto.
Substituir bens que já foram produzidos e que foram danificados é e sempre será uma despesa negativa, e jamais um investimento positivo. Substituir um pneu furado ou um pára-brisa quebrado não é motivo para celebração.
Se destruição é boa, por que esperar por furacões?
Fazendo um simples, porém lógico, exercício mental de reductio ad absurdum, se desastres — que fazem apenas destruir riqueza, capital produtivo e infraestrutura — são bons para a economia, por que esperar por furacões?
Imagine tanques desfilando pelas ruas da sua cidade disparando contra edifícios, postes de luz, pontes e demais infraestruturas. Isso fará com que os governos e as seguradoras tenham de gastar dinheiro para reconstruir tudo isso.
Sim, tal medida irá empregar mão-de-obra e irá demandar uma grande quantidade de máquinas e equipamentos. Essas são as consequências que todos conseguem ver de imediato. Mas e as consequências não-vistas?
Para começar, o que é que foi produzido de novo por esta reconstrução? Nada. Na melhor das hipóteses, tudo voltará a ser como era antes. No final, tudo dando certo, todo o estoque de capital e riqueza terá simplesmente voltado à estaca zero. A economia como um todo não ficou mais rica do que era antes da destruição.
Em segundo lugar, e ainda mais importante, é necessário levar em conta todos os bens e serviços que poderiam ter sido produzidos por esse maquinário e mão-de-obra imobilizados no esforço de reconstrução e que não poderão ser produzidos simplesmente porque não há fatores de produção disponível para tal serviço. Impossível mensurar os custos econômicos das empresas que deixaram de ser abertas, dos empregos produtivos que deixaram de ser gerados e das tecnologias que deixaram de ser criadas simplesmente porque todos os recursos escassos da economia estavam imobilizados neste esforço de simplesmente trazer a economia de volta para seu estado inicial.
Tudo isso gera um enorme custo de oportunidade — ou melhor, uma enorme perda de oportunidade.
Toda a economia perde quando o capital tem de ser gasto duas vezes apenas para fazer a mesma coisa: uma na construção e outra na reconstrução. Neste processo, nada de novo foi criado; nenhuma riqueza real foi gerada.
Enxergando os custos
No caso específico de desastres naturais, há três custos enormes que afetam toda a economia, os quais, por si sós, anulam todos os “benefícios” das destruições glorificadas por estes economistas.
1) Os maiores gastos incorridos pelas seguradores irão encarecer as apólices e as prestações, afetando todo o resto da economia. Estas pessoas terão agora menos dinheiro para gastar em outras áreas.
2) Os combustíveis aumentam de preço. No caso do furacão Harvey, isso foi explícito, pois várias plataformas foram e a capacidade de refino da região foi interrompida. Já no caso de desastres em geral, além de uma quebra na oferta (os canais de distribuição são afetados por causa da destruição da infraestrutura), há também um aumento na demanda exatamente por causa dos esforços de reconstrução.
E isso se traduz em encarecimento não só da gasolina e do diesel, mas também de todos os tipos de plásticos e de outros produtos produzidos por combustíveis fosseis, bem como de todos os bens e serviços que dependem de transporte (ou seja, praticamente toda a economia).
Preços maiores nunca são um benefício para os consumidores. E, de novo, com bens e serviços mais caros, sobra menos dinheiro para as pessoas gastarem em outras áreas.
3) Todo o dinheiro que o governo irá gastar para reconstruir a infraestrutura virá de onde? Certamente não virá da conta bancária dos políticos. O dinheiro virá ou do aumento de impostos ou de um maior endividamento do governo.
Um aumento de impostos traz um efeito direto: menos dinheiro nas mãos de pessoas e empresas. Já um aumento do endividamento significa que o governo está pegando mais dinheiro emprestado junto a bancos e investidores. E, dado que o governo está tomando mais crédito, sobrará menos crédito disponível para financiar empreendimentos produtivos. E, obviamente, todo esse endividamento do governo terá de ser pago no futuro, e provavelmente via mais impostos.
De novo, ambas essas medidas significam menos dinheiro nas mãos das pessoas para gastarem em outras áreas.
Como exatamente tudo isso irá ajudar a economia?
Não há consolo ou lado positivo
Desastres naturais são assim chamados por motivos óbvios. Se eles fossem bons, seriam chamados de “benesses naturais”. Gastar capital apenas para reconstruir algo destruído não gera riqueza para todos. Destruição é e sempre será algo negativo.
Apenas economistas completamente avessos à lógica podem dizer que destruição gera crescimento econômico e riqueza. Se gerasse, então o Japão alegremente convidaria as forças armadas americanas para dar aquele “impulso” à sua economia, que está estagnada há 20 anos. Um intenso bombardeio a Tóquio faria dos japoneses a população mais rica do mundo.
Se você considera tal raciocínio ridículo, saiba que não são poucos os economistas adeptos dele.
O fato é que, seja na forma de um furacão, de um tornado, de um terremoto, de chuvas torrenciais ou mesmo de uma guerra, não há consolo ou lado positivo em se destruir capital. Destruir recursos escassos sempre será algo estúpido. Os únicos que terão ganhos monetários com tudo isso serão as empreiteiras contratadas para fazer as obras de reconstrução, bem como seus funcionários. Mas isso dificilmente pode ser classificado como um “ganho para toda a economia”.
Mas tudo isso ainda é o de menos. A maior destruição ocorrida após qualquer um desses eventos é a insubstituível perda de vidas humanas, bem como a dilaceração de famílias e a destruição do trabalho de toda uma vida — como ocorre com pessoas que perdem suas casas e seus estabelecimentos comerciais. Os que sobreviveram ao desastre não ficarão mais consolados ao ouvirem economistas keynesianos lhes dizendo quão sortudos eles são. Tudo aquilo que mais estimavam na vida foi destruído. Não apenas casas e carros, mas fotografias, álbuns de recordação e relíquias de famílias que se perderam não são coisas substituíveis. Ademais, a perda de renda gerada por essa destruição pode empurrar várias pessoas para a bancarrota. Pessoas que hipotecaram suas casas podem ser despejadas. Tão logo a imprensa parar de dar atenção, essas vítimas serão aqueles que terão de lidar com todos os estragos.
Não, não há nenhum lado positivo após um desastre. Seja ele natural ou artificial.

Robert Blumen é um consultor independente que atua na área de softwares.  Mora em San Francisco.

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