Por que o socialismo sempre se transforma na doença que pretende curar

Como um radicalismo revolucionário se transforma em um esclerosado e estagnado sistema baseado no poder, no privilégio e no esbulho, gerenciado por burocratas socialistas dotados de interesse próprio?

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O grande sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) apresentou uma compreensão da evolução dos regimes socialistas no século XX. Em seu monumental tratado, publicado postumamente, intitulado Economia e Sociedade (1925), ele define um líder carismático como sendo aquele que se destaca em meio à massa comum por causa de um elemento específico de sua personalidade: ele possui uma rara qualidade intelectual que lhe permite ver aquilo que outros homens comuns não enxergam e entender aquilo que seus semelhantes não conseguiram.
Este indivíduo, em suma, é visto como alguém dotado de poderes e qualidades excepcionais.
Porém, sua autoridade, explica Weber, não advém do fato de terceiros reconhecerem seus poderes intrínsecos. Seu senso de autoridade e objetivo vem de dentro: ele sabe ser o detentor de uma verdade, a qual ele tem a missão de revelar a todos, pois ele sabe que a revelação desta verdade irá libertar seus conterrâneos. E quando a massa percebe toda a certeza, sabedoria e segurança deste homem, torna-se óbvio e inevitável que ela deve seguir sua liderança.
Vladimir Lenin (1870-1924) certamente se encaixava nesta descrição. Embora muitos que o conheceram ressaltaram sua indefinível e até mesmo nada atraente aparência física, a maioria fez questão de enfatizar sua determinação e sua crença inflexível de estar em uma “missão”, em relação à qual ele tinha a mais absoluta confiança e inabalável determinação. Devido a essa sua postura decidida e nunca vacilante, todos os outros se sentiam magnetizados por ele e prontamente aceitavam sua liderança e autoridade.
Em torno de Lenin, o carismático, havia todo um séquito de discípulos e camaradas que igualmente se consideravam adeptos de um chamamento. Eram os ‘escolhidos’. E se viam como servindo à mesma missão: a promoção da revolução socialista. Como disse Weber:
O grupo que se sujeita à autoridade do carismático se baseia em uma forma emocional de relação comunal. […] O grupo é escolhido em termos das qualidades carismáticas de seus membros. O profeta tem seus discípulos. […] Há um “chamado” feito pelo líder, o qual se baseia nas qualificações carismáticas daqueles que ele convoca.
O grupo “escolhido” renuncia (ao menos em princípio) às tentações materiais das circunstâncias mundanas, pois o objetivo de sua “missão” é exatamente derrubar e destruir essas tentações materiais. Com efeito, isso também marcava o estilo de vida conspirador, secreto e algumas vezes espartano dos revolucionários marxistas. Max Weber explicou:
No início da revolução, não há coisas como salários e benefícios. Os discípulos e seguidores tendem a viver basicamente em uma relação comunista com seu líder. […] Puro carisma. […] O grupo desdenha e repudia a exploração econômica da renda assalariada, embora tal postura seja muito mais um ideal do que um fato. […] Por outro lado, a ‘pilhagem’, seja ela obtida pela violência ou por outros meios coercitivos, é a outra forma típica de como o grupo se financia.
Porém, tão logo o carismático e seus seguidores chegam ao poder, ocorre uma transformação em seu comportamento e em seu relacionamento com o resto da sociedade. Agora, passa a ser impossível para esse grupo se manter isolado das questões mundanas da vida diária. Com efeito, se eles não lidarem com estas questões, seu poder sobre a sociedade estará ameaçado de desintegração. Assim, lentamente, aquele fervor que caracterizava a missão ideológica e a camaradagem revolucionária começa a morrer. Disse Max Weber:
Somente os membros de um pequeno grupo de fervorosos e entusiasmados discípulos e seguidores estarão preparados para dedicar suas vidas à sua vocação ideológica da maneira mais pura e idealizada. Já a grande maioria dos discípulos e seguidores irá, no longo prazo, voltar a ‘ganhar a vida’ de uma maneira mais material. Consequentemente, eles irão se preocupar apenas em se apropriar totalmente do poder e dos controles e vantagens econômicas que ele oferece. E a entrada de novos seguidores no grupo passará a ser estritamente regulada. Assim, forma-se uma casta privilegiada. […]
Consequentemente, no corpo político já concretizado, os membros, funcionários e detentores de benefícios passam a ser diferenciados dos ‘pagadores de impostos’. Os primeiros, em vez de serem ‘seguidores’ do líder, se tornam funcionários do estado e são nomeados membros do partido. […] Com o tempo, o grupo carismático tende a se metamorfosear em uma forma típica de autoridade, mais especificamente, a autoridade burocrática.

Nesta análise de Max Weber é possível ver o esboço daquele processo histórico por meio do qual um bando de marxistas revolucionários, convencidos de que viram os rumos da história de uma maneira que outros mortais não viram, passam se enxergar a si próprios como os parteiros daquela história que só eles viram. E o fazem por meio de uma violenta revolução.
Porém, à medida que as brasas da vitória socialista vão arrefecendo — como na Rússia após a Revolução de 1917 e a sangrenta guerra civil de três anos que se seguiu —, os revolucionários têm de se voltar para as questões mundanas de como “construir o socialismo”. E construir o socialismo significa a transformação total da sociedade. E a transformação da sociedade significa controlar, supervisionar e ordenar absolutamente tudo.
O interesse próprio e a nova “sociedade de classes” do socialismo
E foi assim que nasceu, na nova União Soviética, aquilo que viria a ser chamado de Nomenklatura.
Começando em 1919, o Partido Comunista implantou o procedimento de criar listas de cargos e posições burocráticas a serem preenchidos por meio de nomeações oficiais, bem como listas de pessoas que poderiam se qualificar para serem promovidas a estas posições mais elevadas de autoridade.
Assim surgiu a nova classe dominante sob o socialismo.
Ministérios tinham de ser criados e ocupados. Cargos partidários tinham de ser preenchidos. Indústrias estatizadas e fazendas coletivas precisavam de gerentes para supervisionar a produção e garantir que as metas estabelecidas pelo planejamento central seriam cumpridas. Redes de distribuição estatal tinham de ser implantadas. Sindicatos precisavam ser controlados por membros fieis ao Partido. E a mídia precisava de editores e repórteres que publicassem estórias e propagandas sobre os grandes progressos e vitórias obtidos pelo socialismo nessa nova e gloriosa sociedade coletivista, na qual o novo Homem Soviético estava sendo criado.
Porém, contrariamente às promessas de se criar um “novo homem” a partir dos escombros da velha ordem, o exato oposto ocorreu. À medida que a economia socialista ia sendo construída, toda a imutável natureza humana inevitavelmente passou a se manifestar: o interesse próprio, a busca por oportunidades de ganhos, a procura por maneiras de melhorar a própria vida e a de seus familiares e amigos. Tudo isso gerou tentativas generalizadas de se conseguir o controle das mercadorias e recursos escassos “socializados” com o intuito de obter ganhos pessoais dentro dos labirintos e redes da burocracia soviética.
E dado que o estado havia declarado ser o único proprietário de todos os meios de produção, não foi nenhuma surpresa que, à medida que os anos e então as décadas iam se passando, cada vez mais pessoas foram se tornando membros da Nomenklatura e também de suas posições diretamente subordinadas: esse era o único caminho para uma vida mais próspera e agradável. Ao final, o estado socialista não transformou a natureza humana; a natureza humana encontrou maneiras de usar o estado socialista para seus próprios fins.
O sistema de privilégios e corrupção que o socialismo soviético criou foi claramente explicado por Boris Yeltsin (1931-2007), o membro do Partido Comunista da Rússia que, mais do que vários outros, ajudou no fim da União Soviética e na criação de uma Rússia independente em 1991. Em seu livro Against the Grain (1990), Yeltsin explicou:
A ração fornecida pelo Kremlim, uma distribuição especial de produtos inalcançáveis para a população geral, é conseguida pelo alto escalão pela metade do seu preço normal, e consiste de alimentos da mais alta qualidade. Em Moscou, um total de 40.000 pessoas usufruem o privilégio destas rações especiais, em várias categorias de quantidade e qualidade. Há seções inteiras da GUM — a enorme loja de departamentos localizada na Praça Vermelha de fronte ao Kremlim — fechadas ao público e reservadas especialmente para o alto escalão da elite. Já para os funcionários do segundo e do terceiro escalão, há outras lojas exclusivas. Todas elas são rotuladas de “especiais”: armazéns especiais, lavanderias especiais, policlínicas especiais, hospitais especiais, casas especiais, e serviços especiais. Que uso mais cínico da palavra!
A tão prometida “sociedade sem classes”, em que haveria igualdade material e social, foi, com efeito, o mais granulado sistema de poder e privilégio hierárquicos já criado. Suborno, corrupção, conexões e favorecimentos permeavam todo o tecido da sociedade socialista soviética. Dado que o estado detinha, produzia e distribuía absolutamente tudo, as pessoas tinham de ter “amigos”, ou amigos que conheciam as pessoas certas, ou que sabiam a pessoa certa a quem você deveria se apresentar e mostrar o quão agradecido ficaria em troca de um suborno ou de favores recíprocos. Tudo isso era necessário para obter acesso a algo que era impossível de ser obtido por meio dos canais normais da rede de distribuição centralmente planejada para “as massas”.
E por cima de todo este sistema socialista de poder, privilégio e esbulho liderado pelo Partido Comunista estava a polícia secreta soviética, o famoso o KGB (Komitet gosudarstvennoy bezopasnosti, ou Comitê de Segurança do Estado), espionando, vigiando, ameaçando e denunciando toda e qualquer pessoa que ameaçasse ou questionasse a propagando ou o funcionamento do “paraíso dos trabalhadores”.
Contradições e o fim do socialismo soviético
Não é nenhum exagero dizer que tudo aquilo que os marxistas diziam ser a natureza do sistema capitalista — a exploração de muitos pelos poucos privilegiados; uma brutal desigualdade de riqueza e de oportunidade devido simplesmente a um arranjo artificial de controle dos meios de produção; a manipulação da realidade para fazer com que a escravidão parecesse liberdade — era, na verdade, a natureza e a essência do socialismo soviético. Que maneira mais deturpada e pervertida de deformar a realidade através de uma lente ideologicamente distorcida.
Tudo isso finalmente acabou em 1991, quando os privilégios, as pilhagens e a brutal pobreza do “socialismo verdadeiro” tornaram o sistema soviético insustentável. Com efeito, à época, já era praticamente impossível encontrar alguém em qualquer canto da sociedade soviética que ainda acreditasse na “falsa consciência” da propaganda socialista. A União Soviética havia chegado ao beco sem saída da falência ideológica e da ilegitimidade social. A “super-estrutura” do poder soviética havia colapsado. (Veja meu artigo “Há exatos 25 anos presenciei o fim do regime soviético”).
Em 1899, o psicólogo social francês Gustave Le Bom (1841-1931) analisou o então crescente movimento socialista do final do século XIX e escreveu o seguinte lamento em seu livro A Psicologia do Socialismo:
Ao menos uma nação terá de sofrer para servir de instrução ao mundo. Será uma daquelas lições práticas que, sozinhas, poderão iluminar as outras nações que alegremente acreditam nos sonhos de felicidade prometidos pelos sacerdotes da nova fé [socialista].
Não somente a Rússia, mas também vários outros países no Leste Europeu, na Ásia, na África e, até hoje, na América Latina foram e estão sendo obrigados a fornecer ao mundo esta “lição prática” de tirania política e de desastre econômico que só uma sociedade socialista, especialmente em sua versão marxista, pode criar.
Atualmente, a Venezuela fornece este exemplo diariamente, em tempo real. E, contrariamente ao sistema soviético, que pôde durar muito tempo porque tinha vários países-satélites cujos recursos podiam ser explorados, o socialismo venezuelano não tem essa “facilidade”, de modo que o sofrimento e empobrecimento de seus cidadãos é muito mais rápido e bem mais intenso.
Conclusão
O socialismo serve como uma apavorante demonstração prática das desastrosas consequências que surgem quando uma sociedade abandona completamente a filosofia política do liberalismo clássico, o sistema econômico de livre mercado, e um arranjo institucional em que a natureza humana (inatamente egoísta) atua dentro de um arcabouço social baseado em associações voluntárias e transações comerciais pacíficas.
Neste centésimo aniversário da Revolução Russa, que a esperança seja a de que a humanidade já tenha aprendido com este erro trágico, e perceba e aceite que somente as liberdades individual e econômica podem criar a justa, boa e próspera sociedade que a humanidade pode e deve ter.

Richard Ebeling leciona economia na Northwood University de Midland, Michigan

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