Como a intervenção estatal no mercado imobiliário aumentou o déficit habitacional

De 2009 a 2015 (ano dos dados mais recentes), o déficit habitacional no Brasil aumentou 5,9%.
Coincidentemente, foi exatamente a partir de 2009 que a intervenção do governo no mercado imobiliário se intensificou visando exatamente a reduzir o déficit habitacional.
Não apenas a expansão do crédito imobiliário pelos bancos estatais aumentou acentuadamente a partir de 2009 (como será mostrado abaixo), como também foi em 2009 que o governo federal lançou o Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), que tinha o objetivo explícito de reduzir o déficit habitacional por meio de financiamentos imobiliários voltados para as pessoas de mais baixa renda, estimulando esses indivíduos a tomar empréstimos para adquirir a casa própria.
O que houve?
As causas históricas do déficit habitacional
Com a inflação monetária e a consequente carestia se tornando galopantes ainda no fim da década de 1950, a contabilidade das empresas e dos bancos tornou-se extremamente distorcida (fenômeno detalhado neste artigo). Por causa do rápido aumento dos preços, as receitas se tornavam nominalmente maiores em um curto período de tempo e, consequentemente, prejuízos operacionais se transformavam em lucros ilusórios, os quais eram pesadamente tributados. Simultaneamente, o próprio custo de reposição de ativos aumentava acentuadamente. Isso foi aniquilando o capital de empresas e bancos. (Todo esse processo foi detalhado por Mario Henrique Simonsen em seu livro 30 anos de indexação).
Como consequência, os bancos reduziram a oferta de crédito, principalmente para a aquisição de moradias, chegando ao ponto de, em 1963, a concessão de um financiamento para a compra de um pequeno apartamento pela Caixa Econômica Federal depender da expressa autorização do presidente da República.
Neste cenário, em agosto de 1964, foi criado o Sistema Financeiro de Habitação (SFH), para tentar remediar os efeitos desastrosos da inflação no setor imobiliário. Obviamente, de nada adiantou, pois as causas da distorção do mercado imobiliário — a inflação galopante — continuaram intactas.
Assim, com o crédito ainda escasso, os edifícios residenciais passaram a ser construídos por meio do autofinanciamento dos condôminos, fenômeno que se manteve até meados da década de 1990. Nesse arranjo, os prazos de término das obras eram continuamente esticados, o que encarecia seus custos.
Para completar, o incentivo ao investimento em imóveis residenciais para aluguel foi destruído pelas sucessivas leis do inquilinato, que prorrogavam por prazo indeterminado os contratos de locação residencial, determinando o congelamento ou o semicongelamento dos alugueis.
O resultado foi a atrofia da indústria da construção civil e a proliferação das favelas, como manifestação ostensiva da crise habitacional gerada pelo estado.
Isso durou até o início da década de 1990. Em 1997, foi criado o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), que representou um avanço em relação ao SFH, pois adotava critérios mais de mercado. Mas era muito pouco e muito tarde.
Já no início dos anos 2000, o direito social à moradia foi constitucionalizado, passando a constar no art. 6º da Constituição Federal, em que constam os direitos sociais. Em meados de 2004, os bancos estatais começam a intensificar os empréstimos voltados à aquisição de imóveis. Em 2009, essa expansão se acelera. Simultaneamente, o PMCMV é instituído legalmente por meio da Lei 11.977/2009, ancorado nessa garantia constitucional.
A expansão do crédito e as distorções
Em meio à crise financeira americana, que temporariamente afetou os mercados de crédito ao redor do mundo, a expansão do crédito geral no Brasil, que era mais expressiva nos bancos privados, foi reduzida.
Assim, a partir de 2008, no intuito de enfrentar a crise internacional e manter a economia aquecida, o governo brasileiro intensificou suas ações com políticas anticíclicas: aumentou a oferta de crédito pelos bancos estatais, na modalidade “crédito direcionado”.
Crédito direcionado representa os empréstimos que os bancos estatais são obrigados a fazer a juros abaixo da Selic. Em termos práticos, o Tesouro repassa dinheiro dos nossos impostos para os bancos, e estes então emprestam esse dinheiro cobrando juros menores que a taxa Selic.
E um dos setores mais privilegiados por essa expansão do crédito direcionado foi exatamente o setor imobiliário. As pessoas tomavam empréstimos para comprar imóveis e pagavam juros que chegavam a ser menos da metade da Selic. Isso só era possível porque o Tesouro, por meio de dinheiro de impostos, bancava a diferença.
O gráfico abaixo mostra a evolução dos empréstimos para a aquisição de imóveis. Dado que o Banco Central tem a péssima mania de descontinuar uma série histórica e criar outra nova, representando exatamente a mesma variável.
Tendo em vista, é possível destacar os seguintes impactos financeiros:
1) O saldo da carteira de crédito do financiamento imobiliário passou de R$ 48,9 bilhões, em janeiro de 2008, para R$ 500 bilhões ao final de 2015 (gráfico 1). Um aumento explosivo de 920%.
2) O saldo da carteira de crédito dos recursos direcionados cresceu de R$ 300 bilhões, no início de 2008, para R$ 1,6 trilhão ao final de 2015 (gráfico 2, linha azul). Aumento de 433%.
Em janeiro de 2008, o financiamento imobiliário representava 16% da carteira do crédito direcionado. Já ao final de 2015, representava 31,25%.
Isso significou um aumento de 95% na fatia que o crédito imobiliário passou a ocupar na carteira do crédito direcionado.
Mais crédito direcionado para a aquisição de um bem gera um efeito inevitável: aumento acelerado dos preços deste bem.
A evolução dos preços dos imóveis
Há dois índices oficiais utilizados para mensurar a evolução dos preços dos imóveis.
O Índice de Valor de Garantias Reais (IVG-R) estima os valores de imóveis residenciais utilizando os valores de avaliação dos imóveis dados em garantia a financiamentos imobiliários residenciais para pessoas físicas nas modalidades de alienação fiduciária e hipoteca residencial.

As consequências nefastas do Minha Casa, Minha Vida
Para contrabalançar o encarecimento dos preços dos imóveis, o que dificultava o acesso dos mais pobres à casa própria, o governo recorreu ao Minha Casa, Minha Vida. Foi o caso clássico de uma intervenção feita para corrigir os efeitos não-premeditados de outra intervenção.
Só que, como era de se esperar, o PMCMV apenas agravou a situação. Um recente e abrangente estudo concluiu que esse programa do governo — o qual, vale lembrar, é um financiamento para a compra de imóveis — foi o fator preponderante para esse aumento generalizado dos preços dos imóveis.
A lógica é direta: os financiamentos imobiliários baratos e subsidiados pelo estado — via crédito direcionado — aumentaram a demanda geral por imóveis e, consequentemente, seus preços. Com os imóveis mais caros, os pobres foram empurrados para o Minha Casa, Minha Vida, um programa criado exatamente para tentar remediar os efeitos inflacionários nos imóveis causados pela expansão do crédito direcionado.
Por meio do MCMV, os pobres se endividaram a taxas de juros ainda mais baratas que as convencionais para comprar imóveis. Só que, ao incentivar adicionalmente essa demanda dos mais pobres por imóveis, os preços gerais dos imóveis subiram ainda mais.
Assim, o governo criou um programa (Minha Casa Minha Vida) para remediar os efeitos causados por outro programa (crédito direcionado barato para a compra de imóveis, utilizado majoritariamente pelos mais ricos, que possuem melhor histórico de crédito).
No final, tudo ficou mais caro. E a consequência é que os pobres ficaram ou sem capacidade de adquirir uma casa (indo para as favelas) ou extremamente endividados. Para agravar, vieram a depressão econômica e a acentuada queda na renda das pessoas, e o déficit habitacional, que deveria ter melhorado, piorou.
Por fim, e ainda segundo o estado, outra consequência não-premeditada criada pelo programa social foi que, com o aumento do valor dos imóveis, as famílias de menor renda se afastaram das sedes urbanas. Isso, por sua vez, demandará maiores investimentos na estrutura de mobilidade urbana. Ademais, por causa desse encarecimento dos imóveis, os pobres terão de acumular mais dinheiro caso queiram, no futuro, adquirir a casa própria — exatamente o oposto do objetivo do programa.

Conclusão
Os benefícios da intervenção estatal no mercado imobiliário, tanto por meio do crédito direcionado quanto pelo PMCMV, foram menores que os custos sociais observados. O objetivo de reduzir o déficit habitacional não só não foi cumprido, como foi agravado.
É verdade que os primeiros a aderir ao programa ganharam. Eles se endividaram a taxas baixas e conseguiram comprar imóveis quando estes ainda estavam baratos. Porém, isso se deu à custa dos últimos entrantes, que arcaram com os preços mais altos e com dívidas que se tornaram impagáveis.
É comum as políticas públicas no Brasil serem implantadas baseadas em intuições de quem ocupa o cargo governamental, e não em estudos que avaliem corretamente o alcance e a efetividade de suas ações — e, com poucas exceções, essa foi a regra na última década. Por isso, é urgente romper com o paradigma de “achismos” ao formatar políticas públicas.
No entanto, considerando que o Programa Minha Casa, Minha Vida serviu para capitalizar politicamente quem comandava a União — o que não deve ser alterado no governo Temer —, não é de se descartar a hipótese de que o real objetivo desse programa social, o de auferir popularidade a determinados políticos, tenha sido cumprido.
Luan Sperandio

 

 

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Como os EUA exportam inflação para o Brasil e para o Mundo

Já ouviu falar em “Exportar Inflação”? Nesse artigo explicamos um pouco mais como e esse processo acontece e porque ele pode começar a ser invertido nos próximos anos.
Para estimular sua economia, o governo dos Estados Unidos e/ou o Banco Central (FED) pode fazer duas coisas: contrair mais dívida ou imprimir mais dinheiro. E na verdade eles escolheram os dois.
A forma como fizeram isso foi emitindo mais títulos públicos (bonds) e o FED comprando grande parte desses próprios títulos (e também outros ativos financeiros). Com essa medida o banco central conseguiu manter as taxas de juros baixas, estimulando a  sua economia (crédito barato).
Por outro lado isso cria uma “demanda artificial” e não era muito comum bancos centrais fazerem isso alguns anos atrás, o que gerou (e ainda gera) desconfiança em relação à saúde do sistema financeiro global.
Entendendo o mercado de bonds: quanto maior a demanda por um título público, menor seu retorno financeiro (yield).
Como isso gera inflação em outros países
O dólar americano é a principal moeda de reserva do mundo. Isso significa que a maioria dos países mantêm suas reservas (dinheiro que possuem) em dólares. Na medida que o FED inunda o mundo com mais dólares, outros países tem duas escolhas:
podem deixar o valor de suas moedas subir;
podem também imprimir mais dinheiro em sua moeda e ficar “neutros” em relação ao dólar deflacionado.

Se os países escolhem o número 1 isso não causa pressão inflacionária mas pode deprimir a economia na medida em que suas exportações ficam menos competitivas. Se a economia interna do países não é forte o suficiente (como Brasil e China não eram há 10 anos atrás) isso pode causar e causa demissões, recessão, crise…
Se eles escolhem o número dois para se manter competitivos, em essência estão criando inflação.
É assim que nos últimos anos os EUA vem “exportando inflação” para o resto do mundo.
Momento atual e perspectivas futuras
Em 2017 a Bolsa nos EUA vem fazendo altas históricas e toda a economia mostra sinais de recuperação, com uma taxa de desemprego baixíssima.
Diante desse novo cenário, em abril de 2017 o FED começa a falar em “diminuir seus balanços” (vendendo títulos e ativos que possui em seu portfólio) e desde 2016 iniciou um processo de elevação das taxas de juros estiveram praticamente zero desde a crise de 2009.
Vale notar como o momento coincide com o ápice da inflação (e taxa de juros) no Brasil…

https://forex-social.com/blog/eua-exportam-inflacao-brasil-mundo/

DIA DO PROFESSOR

Professor, profissional essencial, mas no Brasil há 30 anos, substituído pelos educadores e seus pilares teóricos pedagógicos que simplemente levaram o ensino nacional e a formação de pessoas ao caos generalizado e comprovado por estatísticas sérias e não manipuladas por quem tem interesse em uma nação emburrecida e deformada por esse modelo ideologicamente adotado pela esquerda.
A formação e doutrinação de pedagogos e professores para adoção desse sistema foi tão bem aplicado que mesmo no caos que não é de hoje, esses profissionais se recusam a assumir a cumplicidade desse caos jogando a culpa do emburrecimento para as famílias.
E o pior, esses que se dizem preocupados estão mais preocupados com politicas publicas promovidas por sindicados ligados ao projeto politico esquerdista e por obvio no seu contracheque que mostra que essa classe que deveria dar exemplo também foi emburrecida e teima em greves ao invés de fortalecer a verdadeira educação atuando no setor privado, já que é notória a incompetência do Estado em promover qualquer tipo de serviço para o público.
Mas enquanto esse pensamento demonstrado abaixo se manter balizando a educação e formação do país, esqueçam ao melhor por muitas gerações que se iludem com diplomas e aprovações teatrais de uma massa de analfabetos funcionais fabricada pelo sistema de ensino e estendido ao privado pelo MEC.
“O professor não ensina, mas arranja modos de a própria criança descobrir. Cria situações-problemas”.
JEAN PIAGET
“As maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade”.
LEC VYGOTSKY
“Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
PAULO FREIRE

FILMES PARA DOWNLOAD

Link para download:

https://www.4shared.com/video/d3cREv2-ca/idiocracy.html – Idiocracia

https://www.4shared.com/file/tQxiKMEqca/QNCDub.html – Quando Nietzche chorou

https://www.4shared.com/video/jmydhtvzca/ANTONIO_GRAMSCI_os_dias_do_crc.html – Antonio Gramsci, Cadernos do carcere

https://www.4shared.com/video/8YafRawYca/Danton.html – Danton, o processo da revolução

https://www.4shared.com/video/vjGYVLrdei/baro_de_mau_-_o_imperador_e_o_.html – Mauá

https://www.4shared.com/video/liv5Vvtdca/Do_Czar_ao_Lnin.html – Do czar a lenin

http://www.4shared.com/video/axawaWQNei/Trotsky_A_revoluo_comea_na_esc.html – Trotsky – a revolução começa na escola

https://www.4shared.com/video/Aus6C9K-ei/Colheita_Amarga.html – Colheita amarga

https://www.4shared.com/video/-u0sgvm5ei/AGENDA_2_EDIT__1_.html – A Agenda 2

https://www.4shared.com/video/8hmDXk-tca/Rosa_Luxemburg_Die__1986_.html – Rosa de Luxemburgo

O duplo ônus da cultura do funcionalismo público – Assim se destrói um país

É tentador: salário vitalício, benefícios garantidos pelo estado, estabilidade, carga horária conveniente, e a não-necessidade de apresentar resultados.
Quem nunca desejou passar em um concurso público para dar fim às aflições motivadas pelas incertezas do conturbado cenário econômico-social atual?
A grande questão é que o sonho do concurso público tem gerado um enorme e duplo prejuízo ao país: além do custo exorbitante — o qual exige impostos e endividamento crescentes —, temos uma boa parcela de nossos talentos (nada menos que 12 milhões de jovens preparados) buscando vagas em trabalhos que não acrescentam nada ao avanço da nação.
A maior parte dos cargos públicos se dedica à operacionalização e à manutenção da máquina estatal — e nada mais do que isso. Só que apenas manter a máquina não gera crescimento econômico. É algo como uma locomotiva funcionando sem sair do lugar.
A mentalidade do concurseiro e do burocrata
Normalmente, as pessoas que almejam a um cargo público têm uma certa aversão a riscos.
Entretanto, elas próprias não conseguem enxergar os grandes riscos que estão por trás de suas escolhas. Enquanto se preparam para os concursos, os candidatos deixam de desenvolver as competências e habilidades extremamente necessárias na iniciativa privada. Não acumulam experiência, não fazem contatos, e colocam em seu currículo apenas os cursinhos preparatórios para concursos. Parecem nunca ter o pensamento “e se eu não passar?”.
Um concursado leva, muitas vezes, mais tempo para passar em um concurso do que um acadêmico leva para se fazer doutor. E em que contribuem os anos de estudo do “caçador de concursos” para o avanço da ciência? Em nada. E para a geração de novos negócios? Pior ainda.
Um número incontável de pessoas com preparo e talento passa a se dedicar — e com uma certa obsessão — a passar em algum concurso. Logicamente, o setor público não pode absorver todo esse contingente de pessoas. Consequentemente, apenas alguns passam. E a imensa maioria não aprovada permanece se preparando continuamente, na espera de algum dia ser aprovada.
Enquanto se preparam para os concursos, não desenvolvem habilidades e competências essenciais na iniciativa privada. Os conhecimentos que adquirem nessa jornada são rasos: não provocam avanços na ciência, tampouco estimulam a inovação e muito menos fomentam novos negócios. Trata-se, literalmente, de uma geração desperdiçada. Para infelicidade do país.
Com efeito, os conhecimentos que os concurseiros adquirem também não são úteis nem mesmo para promover melhorias significativas no próprio setor público. Por quê? Porque o sistema burocrático tem auto-defesas muito fortes.
A intenção de burocratas sempre é a de se constituir como um grupo à parte, como um sistema de poder coletivo definido a partir da ausência de poder dos dominados. O fenômeno burocrático caracteriza-se por um conservadorismo expresso especialmente na manutenção e expansão de uma situação de privilégio.
No lugar de representar uma ponte entre os interesses particulares e os coletivos, a burocracia serve a seus próprios interesses — trata-se de uma corporação que se defende em oposição ao resto da sociedade.
Nada pode gerar mais imobilismo do que isso.
O atraso
Um dos principais vetores do desenvolvimento econômico e social de um país é a sua capacidade de produzir ciência, tecnologia e inovação. A inovação é o fator mais importante, não apenas no desenvolvimento de novos produtos ou serviços, como também no estímulo ao interesse em investir nos novos empreendimentos criados.
Nesse cenário, surge a figura do empreendedor como uma força positiva no crescimento econômico, fazendo a ponte entre a inovação e o mercado.
Pode-se ir ainda mais além: o empreendedor é a figura principal desse processo. Apenas pesquisa, desenvolvimento e investimentos em capital físico e humano não causam o crescimento. Essas atividades ocorrem em resposta às oportunidades de crescimento, e tais oportunidades de crescimento são descobertas por empreendedores alertas às demandas futuras dos consumidores.
Lembrando Schumpeter, os empreendedores são os impulsionadores do desenvolvimento econômico, os responsáveis pelas mudanças econômicas em qualquer sociedade. O seu papel envolve muito mais do que apenas o aumento de produção e da renda per capita. Seu papel é iniciar e constituir mudanças na estrutura de seus negócios e da própria sociedade, sempre buscando atender às demandas dos consumidores. Essas mudanças geram maior produção e mais crescimento econômico, o que possibilita que mais riqueza seja usufruída pelos diversos atores sociais.
Entretanto, em nosso país, a cultura empreendedora cede lugar, cada vez mais, à cultura do funcionalismo público. Grande parte de nossos maiores talentos — pessoas capacitadas — sente-se muito mais atraída pelos benefícios do setor público do que pelos riscos e desafios do empreendedorismo.
Pessoas que poderiam contribuir para a melhoria das condições do setor produtivo — seja estudando a fundo a problemática das empresas, seja colocando em prática a sua visão de excelência, servindo de exemplo e referência para outras empresas e outros profissionais — desperdiçam seu talento e energia decorando apostilas para concursos.
Por aqui, empreender passou a ser uma saída para os menos inteligentes, para os mais necessitados, para aqueles que não têm condições de arrumar um emprego decente ou de passar em um concurso público.
E essa é a parte preocupante: nosso setor privado realmente não é eficiente, o empreendedorismo brasileiro, no geral (e essa é uma generalização necessária), é muito rudimentar, surgindo muito mais por necessidade do que pela identificação de oportunidades. Não há diálogo entre academia e mercado. E, em vez de termos pessoas debruçadas sobre os problemas enfrentados por nossas organizações, pesquisando, inovando ou empreendendo, temos um êxodo cada vez maior dos nossos talentos em busca do setor público.
Está tudo errado. Ao passo que os gênios americanos criam empresas fantásticas que mudam os rumos da humanidade, os gênios brasileiros passam em concursos públicos.
O grande inimigo
E, para piorar, além de enfrentar a concorrência dos salários do setor público, o empreendedorismo também não atrai os jovens por causa dos elevados riscos e das enormes dificuldades para se fazer negócios no Brasil.
Empreender e empregar legalmente no Brasil é muito caro. Para abrir uma empresa são necessários 107 dias, em média. Pagar impostos requerem 2.600 horas apenas para preencher formulários (mais do que o dobro do segundo colocado, a Bolívia). Empregar alguém traz um custo extra de 103% do salário só com impostos e outros encargos trabalhistas. Ou seja, além do salário, você tem de pagar o equivalente a outro salário só com impostos, encargos sociais e trabalhistas. Não bastasse isso, ainda temos de arcar com nada menos que 93 impostos diferentes.
O resultado dessa equação é trágico: empaca-se o avanço da ciência e dos negócios, a oferta de empregos diminui, a economia estagna e mais e mais pessoas passam a almejar um posto nas instituições públicas, alimentando esse círculo vicioso.
Eis o resumo da tragédia: o governo asfixia o empreendedorismo com impostos, burocracias e regulamentações. Isso mantém os salários baixos. Salários baixos empurram jovens capacitados para o setor público, que garante estabilidade e altos salários. Mas todos os privilégios do setor público são bancados por impostos e endividamento do governo, os quais são integralmente pagos pela iniciativa privada. Isso deprime ainda mais os salários do setor privado, o que empurra ainda mais jovens preparados para o setor público.
É fundamental revertermos essa tendência e trabalharmos no sentido de fomentar a cultura empreendedora em nosso país. Quando coloco os verbos reverter e trabalhar na primeira pessoa do plural, quero puxar a responsabilidade para as nossas mãos, cidadãos comuns.
Não podemos esperar que o poder público faça a sua parte, pois o estado faz justamente o contrário: inibe a atividade empreendedora ao elevar a carga tributária e criar empecilhos burocráticos absurdos, buscando sempre financiar os altos gastos do setor público com mais tributos e endividamento.
O estado é hoje o grande inimigo da sociedade. Já que não podemos vencê-lo, devemos resistir fortemente à tentação de nos juntarmos a ele.
Conclusão
Nosso setor privado precisa de pessoas capacitadas, talentosas e inteligentes, mas grande parte de nosso contingente pessoal com essas características sente-se muito mais atraída por cargos públicos.
Do ponto de vista individual, todos aqueles que almejam vagas no setor público estão mais do que certos. Lógico: por que eu deveria me esforçar para atuar em um campo cheio de riscos, sem segurança e sem estabilidade, quando posso trabalhar para o estado, sem me preocupar pelo resto da vida? Por que me arriscar no setor privado, sofrendo cobranças e tendo de apresentar eficiência, se posso simplesmente ganhar muito no setor público, tendo estabilidade no emprego e sem ter de apresentar resultados?
Porém, é justamente o setor privado quem tem de sustentar a farra do setor público. Daí os baixos salários pagos na iniciativa privada. Toda a carga tributária existente no Brasil, que impede aumentos salariais na iniciativa privada, existe justamente para sustentar o setor público e seus funcionários que ganham salários magnânimos e vivem à custa dos trabalhadores da iniciativa privada, os quais ganham pouco justamente porque têm de bancar os membros do setor público.
O Brasil gasta demais com funcionários públicos, e não há quem se comprometa a pôr um freio nesta farra.
A questão é: como irão fechar as contas sem recorrerem a mais impostos? Se assim o fizerem, poderá chegar o dia em que irão inviabilizar as empresas, que são quem mantém toda essa estrutura. Ironicamente, sem o setor produtivo, o número de funcionários públicos bem pagos cairá a zero.

Leandro Vieira é Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Certificado em Empreendedorismo pela Harvard Business School.

Se o socialismo é economicamente inviável, por que ele dura tanto tempo?

Ao longo da segunda metade do século XX, o Leste Europeu vivenciou várias manifestações e atos de desobediência civil contra o regime soviético. Na Hungria, em 1956; em Praga, em 1968; e, especialmente, na Polônia ao longo das décadas de 1970 e 1980, a resistência contra a tirania se inflamou. Mas todos os movimentos foram esmagados pelo governo de Moscou, tanto por meio da imposição de leis marciais quanto pelo recurso da intervenção militar direta.

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No entanto, no verão de 1989, os poloneses conseguiram realizar eleições livres. Ativistas anticomunistas (e, em vários casos, também anti-socialistas) surpreenderam seus conterrâneos: eles conquistaram 99 das 100 cadeiras no Senado e absolutamente todas as 161 cadeiras do Parlamento que o regime permitiu serem disputadas na eleição. Isso essencialmente derrubou o regime soviético na Polônia. Desta vez, no entanto, em vez de enviarem tanques para esmagar os agitadores poloneses, a URSS não fez nada.
Já em novembro daquele ano, os dissidentes dos outros países ficaram animados ao constatar a inação soviética na Polônia. Hungria e Tchecoslováquia arbitrariamente decidiram abrir suas fronteiras, permitindo que os alemães orientais pudessem ira para a Áustria e, dali, para a Alemanha Ocidental. Os moradores da Berlim Oriental começaram a exigir livre trânsito para o Ocidente. A “queda” do muro ocorreu logo em seguida.
Muitos americanos, e especialmente os conservadores, gostam de afirmar que o fim do bloco soviético e da União Soviética foi um feito americano: a alegação é a de que os oligarcas soviéticos não apenas não conseguiram acompanhar a escalada armamentista americana, como também temiam o crescente e incontestável poderio militar americano, e, por isso, simplesmente decidiram se render e permitir que o regime acabasse naturalmente, como de fato ocorreu em 1991.
Essa narrativa é ótima para fins de propaganda doméstica nos EUA, mas o fato de que regimes tirânicos nunca simplesmente “se rendem” sem disparar um único tiro ao lidarem com um poder externo ameaçador faz com que essa teoria seja bem improvável.
Uma questão intelectualmente mais honesta seria, em vez de exaltar o poderio militar americano, perguntar por que o estado soviético estava tão fraco na década de 1980.
Afinal, se os soviéticos haviam sido inquestionavelmente capazes de “manter a ordem” no Leste Europeu durante as décadas de 1950, 60 e 70, por que eles repentinamente perderam essa capacidade na década de 1980?
Partindo-se dessa premissa, os fatos rapidamente nos levam a descobrir que, já na década de 1980, a economia soviética, bem como a maioria das economias do Leste Europeu, já estava em frangalhos. As moradias eram decadentes e suas estruturas já estavam se esfacelando. Os automóveis e os aparelhos eletrodomésticos eram inacreditavelmente antiquados e raramente funcionavam a contento. O padrão de vida dos cidadãos do Leste Europeu havia caído para uma mera fração do padrão usufruído pelos seus congêneres da Europa Ocidental. Itens básicos como sabonete, ovos, leite e até meia-calça feminina eram luxo de poucos.
Em outras palavras, as economias centralmente planejadas do bloco soviético produziam muito pouca riqueza real, e seus regimes, para se sustentarem, sugavam e consumiam uma quantia crescente dessa pouca riqueza que a população ainda conseguia produzir. Como consequência inevitável, tanto a população quanto os regimes empobreciam continuamente.
Essa debilidade econômica significava que não apenas a legitimidade do regime estava em risco, como também que os soviéticos não mais usufruíam um “excedente” militar, ao qual eles podiam recorrer sempre que tinham de restabelecer a ordem em algum país-satélite cuja população apresentava um princípio de rebelião.
Ou seja, a URSS estava pobre demais para conseguir pagar suas contas políticas.
Mises e o problema do cálculo econômico
Nada disso teria surpreendido Ludwig von Mises, caso vivo estivesse à época. Muito antes da derrocada soviética, Mises havia demonstrado que, em uma economia socialista (com esse termo ele se referia a uma ‘economia centralmente planejada’), é praticamente impossível saber qual bem deve ser produzido, como deve ser produzido, em que quantidade deve ser produzido, com que qualidade deve ser produzido, para quem deve ser produzido e quando deve ser produzido.
Ao explicar isso, ainda em 1920, Mises provou que a União Soviética, não obstante quaisquer vitórias que pudesse obter no campo da remodelagem da natureza humana, era economicamente impossível. Como resumiu Murray Rothbard:
Antes de Ludwig von Mises expor o problema do cálculo econômico no socialismo, em seu celebrado artigo publicado em 1920, socialistas e não-socialistas já haviam percebido que o socialismo sofria de um grave problema de incentivos.
Se, por exemplo, todos os indivíduos em um sistema socialista fossem receber uma mesma renda — ou, em sua variante, se todos fossem produzir “de acordo com suas capacidades”, mas recebessem “de acordo com suas necessidades” —, então, parodiando aquela famosa pergunta: quem, no socialismo, fará o trabalho de recolher o lixo? Ou seja, qual será o incentivo para se efetuar os trabalhos sujos?  Mais ainda, quem fará esses trabalhos? Ainda pior: qual será o incentivo para se trabalhar duro e ser produtivo em qualquer emprego?
[…]
No entanto, a singularidade e a crucial importância do desafio de Mises ao socialismo é que seu argumento estava totalmente dissociado desse problema do incentivo. Mises, com efeito, disse: muito bem, vamos supor que os socialistas tenham sido capazes de criar um poderoso exército de cidadãos genuinamente ávidos para seguir todas as ordens de seus mestres, os planejadores socialistas.
Fica a pergunta: o que exatamente esses planejadores mandariam esse exército fazer? Como eles saberiam quais produtos seus escravos deveriam produzir? Em qual etapa da cadeia produtiva cada exército deveria trabalhar? Quanto de cada produto deve ser produzido em cada etapa da cadeia de produção? Quais técnicas ou quais matérias-primas devem ser utilizadas na produção como um todo? Qual a quantidade de matérias-primas a ser utilizada? Onde especificamente fazer toda essa produção? Como eles saberiam seus custos operacionais ou qual processo de produção é mais eficiente?
Mises demonstrou que, em qualquer arranjo econômico que seja mais complexo do que o exemplo de Robinson Crusoé sozinho em uma ilha, o comitê de planejadores socialistas simplesmente não teria como saber o que fazer. E nem como responder a essas perguntas vitais.
Ao explicitar esse poderoso conceito do cálculo econômico, Mises demonstrou que o comitê de planejamento central não tinha como responder a essas perguntas porque o socialismo não dispõe daquela indispensável ferramenta que só existe em uma economia de mercado, e a qual empreendedores utilizam para fazer cálculos e estimativas: existência de preços livremente definidos no mercado.
Sob o socialismo, os meios de produção (fábricas, máquinas e ferramentas) não possuem proprietários definidos (eles pertencem ao estado). Se os meios de produção pertencem exclusivamente ao estado, não há um genuíno mercado entre eles. Se não há um mercado entre eles, é impossível haver a formação de preços legítimos. Se não há preços, é impossível fazer qualquer cálculo de preços. E sem esse cálculo de preços, é impossível haver qualquer racionalidade econômica, o que significa que uma economia planejada é, paradoxalmente, impossível de ser planejada.
Sem preços, não há cálculo de lucros e prejuízos, e consequentemente não há como direcionar o uso de bens de capital para atender às mais urgentes demandas dos consumidores da maneira menos dispendiosa possível.
Dado que a própria essência do socialismo é a propriedade coletiva dos meios de produção, e dado que tal arranjo não permite o surgimento de preços de mercado, e dado que sem preços não há o mecanismo de lucros e prejuízos, que é o que traz racionalidade para qualquer processo produtivo, o comitê de planejamento central não seria capaz nem de planejar nem de tomar qualquer tipo de decisão econômica racional.
Suas decisões necessariamente teriam de ser completamente arbitrárias e caóticas.  Consequentemente, a existência de uma economia socialista planejada é literalmente “impossível” (para utilizar um termo que foi muito ridicularizado pelos críticos de Mises).
Os planejadores centrais soviéticos nunca responderam a esse desafio. Com efeito, a “resposta” deles só veio em 1991, quando a URSS foi finalmente abolida. E, imediatamente antes do colapso, ainda havia proeminentes economistas keynesianos sem perceber o óbvio.
Não há exemplo melhor deste auto-engano intelectual do que o de Paul Samuelson, professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o primeiro americano a ganhar o Prêmio Nobel de economia (1970), ex-colunista da revista Newsweek, e autor daquele que é, de longe, o mais influente livro-texto de economia do mundo pós-guerra: pelo menos 3 milhões de cópias vendidas em 31 idiomas distintos.
Ele escreveu na edição de 1989 de seu livro-texto: “A economia soviética é a prova cabal de que, contrariamente àquilo em que muitos céticos haviam prematuramente acreditado, uma economia planificada socialista pode não apenas funcionar, como também prosperar.”
Por que demorou tanto?
Em resposta à afirmação de Mises sobre a impossibilidade do planejamento central, alguns então perguntam: “Bom, se o planejamento central é impossível, então por que o arranjo soviético se manteve por tanto tempo?”
A resposta está no fato de que, mesmo em uma economia centralmente planejada, o capital — ou seja, as riquezas existentes — não desaparece da noite para o dia. Os planejadores soviéticos não implantaram seu regime em um deserto. Eles não começaram do nada. Eles tinham à sua disposição todo o capital que havia sido acumulado — durante séculos de poupança e investimento — pelos russos, ucranianos, alemães, poloneses, tchecos, húngaros e todos os outros sob seus domínios.
Sim, é verdade que não era possível para os soviéticos planejar corretamente ou determinar de maneira não-arbitrária quais bens deveriam ser produzidos. No entanto, eles ainda assim dispunham de uma vasta quantidade de capital que havia sido acumulado ao longo de séculos pelos seus novos súditos. E, ainda que esse estado centralmente planejado produzisse zero de riqueza (o que não é necessariamente verdade, dado que até mesmo o estado soviético produzia algumas coisas que a população queria), ele ainda assim tinha à sua disposição uma farta quantidade de riqueza que podia ser consumida e redistribuída até ser completamente exaurida.
Isso pode ser observado de maneira ainda mais evidente em regimes que são apenas parcialmente centralizados, como é o caso da Venezuela. Como explicado neste artigo:
[Se] um dos mais ricos e desenvolvidos países do mundo adotasse, da noite para o dia, instituições cubanas ou norte-coreanas . . . . sua riqueza e todo o seu capital acumulado não desapareceriam em 24 horas. A dilapidação do capital, embora seja um processo bem mais rápido do que sua acumulação, não se dá de imediato.
O país deixaria de continuar acumulando capital e passaria meramente a consumir seu capital, mas poderia demorar décadas para dilapidar toda a riqueza já construída.
Enquanto ainda houver riqueza, o governo terá recursos para … continuar usufruindo a riqueza, as rodovias, a infraestrutura elétrica e as redes de comunicação já existentes, as quais foram resultado das instituições mais pró-mercado que existiram no passado.
Com o tempo, no entanto, esse “fundo de reservas”, como Mises o rotulou, se exaure:
Um ponto essencial na filosofia social do intervencionismo é a pressuposição da existência de fundos inesgotáveis que podem ser drenados permanentemente. O sistema intervencionista entra em colapso quando essa fonte seca: desmorona o mito do Papai Noel econômico.
No que mais, o regime soviético ganhava dinheiro vendendo petróleo (e outros bens) no mercado internacional, e o alto preço do petróleo na década de 1970 ajudou a prolongar a existência do regime. Não fossem as vendas de petróleo no mercado internacional — vendas essas que forneciam moeda forte ao regime soviético —, é bem possível que o regime entrasse em colapso uma década antes.
Conclusão
É sim possível que o programa militar americano e as relações internacionais do país tenham sim tido algum efeito não-trivial sobre os regimes do Leste Europeu (o papel do Papa João Paulo II na derrocada do regime polonês é inquestionável).
Não obstante, tais análises ignoram o ponto principal: a grande debilidade dos regimes que se baseiam em um planejamento central e na redistribuição de riqueza.
Sem mercado e sem preços de mercado, é impossível haver qualquer tipo de planejamento econômico; e sem planejamento, não há como haver criação de riqueza e, em última instância, durabilidade política.
Os bravos rebeldes e manifestantes do Leste Europeu merecem enormes créditos por terem corajosamente enfrentado uma máquina homicida. Porém, no final, eles foram bem-sucedidos porque foram imensamente ajudados pela escolha do momento certo e pelas decisões econômicas ruins dos burocratas.

Ryan McMaken